quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

A propósito de mulheres reais...



Até Domingo estarei sozinha com os meus 4 filhos. Assusta um bocadinho, mas é nestas alturas que percebo que andamos a fazer a coisa certa com os mais velhos: colaboram em tudo, fazem-me companhia quando noutra altura qualquer estariam saudavelmente centrados nos seus "umbigos adolescentes", são incansáveis na ajuda com o Vicente, acordam do seu mundo muito próprio para arregaçarem as mangas e mostrarem que estão ali para o que for preciso.
Até Domingo vou ter de me lembrar de respirar. Mas ficarei à tona. Sempre.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

As minhas 7 vidas!


A Activa saiu há dois dias, mas só consegui ler agora a entrevista que dei à Cíntia. Cheguei de uma reunião há meia hora, estou finalmente sentada no sofá ao lado do homem da minha vida, os putos estão deitados, a casa está mergulhada num silêncio raro, merecido, precioso.
Leio o que a Cíntia escreveu em voz alta ao meu marido, e há passagens em que me emociono. Volto atrás, aos tempos em que fui gozada todos os dias na escola, à separação dos meus pais e à minha, à primeira vez que fui mãe, à plagiocefalia do Vicente, aos desafios sucessivos que a vida nos coloca, mas que, com jeito, superamos um a um. Devagarinho.
Fecho a revista e o Rui pergunta-me se é uma sensação estranha ver-me e "ler-me" naquelas páginas. Respondo-lhe que sim, um "sim" orgulhoso que não sou de falsas modéstias. Um "sim" que significa uma única coisa: uma Vida tem muitas vidas dentro. Assim tenhamos a coragem de viver a que nos pertence.

[obrigada à Cíntia Sakellarides pela generosidade do texto e à Natalina de Almeida por me ter feito sentir parte da "família Activa"]

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Amiga, lê este post quando saíres do cinema!


Amanhã fazes 46. Faltam-me três para ter a tua garra, a tua força de viver, a tua capacidade de dar a volta, a tua beleza assombrosa.
Dizer-te que a minha vida mudou quando te conheci. E que uma amizade pode ser um grande Amor.

[amanhã dou-te os parabéns; isto foi só um ensaio]

domingo, 4 de fevereiro de 2018

1,2,3, vamos lá outra vez!


A vida nova que iniciei em Dezembro começa, aos poucos, a seguir um rumo mais certo. Não que os dias sejam certos, cadentes, iguais uns aos outros, que não são de todo, mas o meu biorritmo vai-se gradualmente habituando aos caos desta nova existência, porque me vou esquecendo do ritmo de antes. E porque vou arranjando os meus escapes e as minhas estratégias para "sobreviver".
Lendo o que acabo de escrever, quase parece que vivo um suplício, mas não é verdade. Nunca é demais lembrar (e lembrar-me), que a escolha foi minha e que apesar da vertigem que sinto todos os dias, não queria estar a fazer outra coisa.
Amanhã começa uma nova semana. Tudo outra vez. Mas dormi, passei tempo com os meus filhos e com o meu homem, li e dediquei-me ao dolce far niente. Vamos lá a isto.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

A Vida sabe sempre o que faz!


Alguém me perguntou se o Vicente foi um filho planeado; não foi. Mas a Vida, Deus, essa Força Cósmica que paira sobre nós, sabe o que faz.

[Mãe, ainda bem que garantes a eternidade destes momentos]

domingo, 28 de janeiro de 2018

A conciliação faz-se com uma rede de suporte. Apenas isso.

Juvenália de Oliveira Fotografia

Tinha decidido que teria todo o tempo do mundo para ti, porque és o meu último filho, mas não é assim. Agarrei um novo desafio profissional e o meu tempo divide-se por muitas frentes. Demasiadas.
Culpo-me de cada vez que te vou buscar à creche a horas obscenas, ou de todas as vezes que não chego a conseguir fazê-lo. Resta-me a certeza de teres o melhor pai e os melhores avós do mundo, que remendam as minhas faltas. Sobram-me os fins-de-semana e as vezes, durante a semana, em que te adormeço na minha cama, entre uma canção de embalar desactualizada e beijinhos repenicados, ainda que com o coração em sobressalto, porque é só depois de adormeceres que volto ao trabalho.
A conciliação não existe. É uma mentira descarada criada para aliviar a culpa. E alivia pouco.

sábado, 20 de janeiro de 2018

A minha liberdade rima com identidade. E a vossa?


Há 12 meses que não pinto o cabelo. Durante este período fiz três cortes radicais para facilitar a transição e criei o grupo Mulheres de Prata para me sentir menos sozinha nesta jornada.
Hoje, passado um ano, vejo isto de outra maneira. O grupo transformou-se numa comunidade já com mais de 3000 mulheres, e muito para além de ser um espaço de mulheres a assumirem os seus cabelos brancos, é uma oportunidade, o mote, o que lhe quisermos chamar, para nos libertarmos de algumas imposições sociais e vivermos as mudanças que vão acontecendo à nossa imagem, de forma natural.
Hoje olhei-me ao espelho e percebi que estou muito mais "branca" do que há pouco tempo atrás. A ausência de tintas permite esta coisa bonita de vermos o tempo a passar gradualmente, sem dramas, como tem de ser. E haverá fenómeno mais libertador do que este? Esta capacidade de olhar o tempo com as lentes da beleza e sem angústia?
Não é preciso deixar de pintar o cabelo para atingirmos um certo grau de liberdade; ele consegue-se de muitas maneiras possíveis. Mas parar esta busca é morrer aos bocadinhos; privarmo-nos do exercício diário de arrancarmos amarras pequeninas é porta de entrada para muitos vírus que nos enfraquecem sem darmos conta.
Só vos peço uma coisa: descubram as vossas estratégias de liberdade e ponham-nas em prática. Vão a um sítio que nunca foram, façam o caminho de casa por uma estrada por que nunca passaram, tomem um banho de mar à noite, pisem relva molhada, dêem um grito quando alguém menos espera, um abraço quando alguém menos espera, digam "amo-te" e "odeio-te" se preciso for, rapem o cabelo ou deixem-no crescer até ao rabo, usem batom vermelho ou decidam que não querem mais maquilhar-se. Caramba, façam o que vos apetece de vez em quando, só porque sim. Só vivemos uma vez.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Dois truques para sobreviver ao caos!


Não tenho tido tempo nem vontade de escrever. Ando cansada e com a energia focada em duas únicas coisas: dar resposta ao desafio profissional a que me propus e não deixar que a minha família saia muito penalizada com isso. Este esforço consome-me os dias e as noites até normalizar, porque quando deito a cabeça na almofada culpo-me por tudo aquilo que deixei por fazer: os mails pessoais e do blogue a que não respondi, os amigos a quem não retornei a chamada, os projectos que ando a deixar parados, os posts que não escrevo, tudo aquilo que tenho deixado em suspenso quando a vida nos troca as voltas e nos mostra, por a+b, que nem sempre adianta fazer planos.
Não tenho a certeza de que a vida se resolva sozinha, como diz a minha amiga Catarina ,mas sei que ela anda sozinha, tantas vezes à nossa frente, sem lhe entendermos o sentido. O truque é correr-lhe atrás, que um dia percebemos tudo.
Outro truque? Não querer ser tudo nem fazer tudo. Embora isto pareça uma triste constatação, é um tremendo alívio.

[enquanto tenho dificuldade em vir ao blogue diariamente, acompanhem-me @aqui!]

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A minha Vitória


Esta foto é para a minha filha. Para que se ponha boa depressa, porque é o meu mundo, a minha princesa, a minha Vitória.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Tudo o que és.


És a minha calma e o meu desassossego, a minha prisão e a minha liberdade, o meu motor e o meu travão, a minha casa e o meu hotel, a minha salvação e a minha perdição, a minha fraqueza e a minha força, a minha loucura e a minha lucidez, a minha verdade e a minha mentira, o meu sossego e a minha incerteza, a minha calma e o meu desassossego, a minha vida e a minha morte, a minha casa de partida e a minha casa de chegada, o meu direito e o meu avesso, o meu yin e o meu yang, a minha luz e a minha sombra. És o meu Amor. Sem contrários.

domingo, 31 de dezembro de 2017

2017, último dia...

Pau Storch Photography
2016 foi o ano da maternidade. O ano em que estive grávida, pari, fiquei de molho. Foi um ano de doçura, de mimo, de vida lá fora em suspenso.
Ao contrário, 2017 foi a transição à bruta. Foi o ano do regresso ao trabalho, o ano que o meu bebé foi para a creche à pressa, o ano das viroses a torto e a direito, o ano das novas rotinas numa família ainda mais numerosa. E também foi o ano em que mudei de funções no trabalho e em que de uma vida em suspenso lá fora, passei para a roda viva da vida, a girar incessantemente sem que a consiga parar sempre que preciso.
Não sei como vai ser 2018. Antevejo muitos desafios, mas acredito que o maior deles todos será este equilíbrio entre a minha vida rica de dentro e a de fora, exigente, rápida, esmagadora. 
Que este novo ano me ensine ainda mais coisas sobre mim própria. E que me saiba pôr no lugar, se precisar. Docemente.

[feliz 2018 para todos!]

sábado, 30 de dezembro de 2017

Em 2017...



...deixei de pintar o cabelo e "grisalhei";
estive em Praga com o homem da minha vida;
toquei piano na rua;
criei o grupo de facebook Mulheres de Prata e descobri mais de 2000 seres-humanos maravilhosos;
fui entrevistada na Renascença;
mudei de vida outra vez;
fiz três carecadas radicais;
conheci uma Mestre de carne e osso;
aceitei um desafio de que andei a fugir a vida toda;
fiz uma pós-graduação em Mediação Familiar;
reconciliei-me com fantasmas;
larguei mão do que pensava que seria o meu destino;
não fui capaz de acabar o meu livro;
fui à Feira do Livro cinco vezes;
li Duras, Yourcenar, Agustina e Clarice Lispector pela primeira vez;
trabalhei com famílias refugiadas e cresci mais um bocado;
cruzei-me com o Joaquín Cortés em Madrid;
vi o meu bebé curar-se de uma plagiocefalia;
saltei para o abismo e não morri;
fui anfitriã da Primeira Dama de Cabo Verde;
fui mãe vezes quatro 1 ano inteiro e sobrevivi;
morri e renasci várias vezes.

[Feliz 2018!]

sábado, 23 de dezembro de 2017

Há quanto tempo é que não passeávamos juntos?


Há mais de um ano que não passeava por Lisboa com o meu marido. Só os dois, sem carrinho de bebé para empurrar, sem horários para cumprir, sem ter de procurar um restaurante kids friendly, sem entrar numa loja enquanto o outro dá voltas na rua para o puto não chorar.
Estarmos só os dois, ao nosso ritmo, metidos na nossa vidinha, é uma proeza cada vez mais rara, mas continua uma demanda nossa. Quero dizer, não é porque o fazemos menos vezes que vamos ficando com menos vontade de o fazer e isso dá-me alento. Eu que sempre fui descrente em relação à duração brilhante das relações. Logo eu, que sempre achei que ao fim de pouco tempo tudo se desvanecia tristemente, a tesão, a vontade de estar com, o prazer, o interesse genuíno no outro.
A rotina é demolidora, com franqueza. Mas o Amor bem regado gosta da rotina, porque a chama a si com uma certa graça e com uma boa dose de ironia. A rotina pode ser boa, quebrada de longe a longe.

[boas festas!]

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Conciliação entre o trabalho e a família: uma miragem?



Há exactamente 17 dias que a minha vida mudou. Assumi novas funções no sítio onde trabalho e com elas vi crescer a responsabilidade, o trabalho e o medo de perder a minha vida tal como a conhecia. 
Ainda não sei dar resposta a esta última questão, mas sei que já muitas coisas mudaram. Na verdade, estas duas semanas têm sido um misto de entusiasmo, de pânico e de alguma dor, porque embora goste de mudanças (e a minha vida tem sido feita de muitas), também sofro com elas, que ninguém está livres das dores de crescimento.
O meu maior desafio tem sido a conciliação; esse chavão bonito que cai bem em congressos e em textos sobre a igualdade de género e sobre as novas formas de viver o trabalho e a maternidade, mas que na prática é lixado de alcançar, porque nos sai do pêlo. A conciliação é possível, mas com franqueza, deita-nos abaixo. Eu faço assim: em vez de ficar até muito tarde no meu local de trabalho, opto por fazer o que tenho a fazer em casa, mas só depois de preparar o jantar, de jantar com os miúdos, de conversarmos sobre o nosso dia, de adormecer o Vicente e de namorar um bocadinho. É depois disso que começa a terceira parte do meu dia que, não raras vezes desde há 17 dias, acaba por volta da uma da manhã. Concilio tudo, se formos a ver: sou profissional, mãe, mulher e amante, tudo no mesmo dia. Mas sou isso tudo com olheiras até ao joelhos e com um cérebro amassado, imagino que o panorama da maioria das mulheres que estão aí desse lado.
Não me queixo, porque gosto muito do que estou a fazer. Gosto, até mais, do que alguma vez imaginei. Mas não me lixem com a treta da conciliação, que ela só se consegue por duas razões: porque nós somos super-mulheres com artes de canivete suíço e, no meu caso, porque tenho um super-homem ao lado e uma família que me ampara sempre. 
A conciliação é só isto: ter flexibilidade para fazer o salto encarpado todos os dias, e ter a sorte de não estarmos sós.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Fechar ciclos faz chorar e faz crescer!


Acabou hoje a minha Pós-Graduação em Mediação Familiar na Red Apple. Em Janeiro e Fevereiro ainda terei uns trabalhos para apresentar, mas esta turma não se reunirá mais.
Tenho 43 anos e já acabei muita coisa, já fechei muitos ciclos, já completei muitas gestalts. Mas hoje sinto-me orfã desta espécie de irmandade. Um vazio fininho, uma nostalgia agridoce, situada algures entre o privilégio destas pessoas terem entrado na minha vida numa fase em que achamos que já ninguém nos marca desta maneira, e um sentimento de perda estúpido.
Hoje não consigo dizer grande coisa, porque ainda não me apetece. Dizer-vos, apenas, que nesta viagem conheci verdadeiras heroínas de carne e osso e ganhei a minha guru; uma mulher baixinha que se agiganta, porque tem o dom de dizer coisas que nos mudam por dentro num tiro certeiro.

Já tenho saudades vossas. Do bolo de limão, do amontoado de livros na casa-de-banho, das idas à Padaria Portuguesa, das confidências, dos podcasts que ouvia a caminho da Red Apple. Tenho saudades vossas, basicamente é isso.
A vida é uma merda, porque nos obriga a acabar coisas quando ainda não estamos preparadas para lhes dizer "fim". Ou se calhar estamos e ainda não sabemos.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Culpa e Conciliação: duas faces da mesma moeda!


Há dois meses que andamos entre otites, amigdalites e, mais recentemente, bronquiolites. A saga das "ites" traz muitas noites em claro, muitas idas à pediatra, muitos euros em medicamentos, muitas olheiras, muitas faltas ao trabalho, muitas acrobacias para tentar tornar a conciliação entre a vida familiar e profissional uma realidade efectiva e menos um conceito puramente teórico.
A verdade é que as mães que trabalham fora de casa com filhos pequenos sabem do que falo; desta constante sensação de estarmos sempre em falha com alguém ou com alguma coisa: com os filhos doentes, com a família que aguenta o barco quando pode, com as chefias a quem temos de ligar pela décima vez a informar que temos mesmo que faltar, com os colegas que (quando temos sorte e eu tenho tido), aguentam o tranco das nossas ausências.
Esta é a realidade pura e dura das mães com filhos pequenos que trabalham fora de casa. Uma culpa e uma ginástica constantes, um sentido do dever na família e no trabalho que nem sempre se concilia apesar dos chavões da "conciliação", um equilibrismo tantas vezes desequilibrado entre duas facetas da vida que se atropelam muitas vezes.
No meu caso, manter o equilíbrio seria impossível sem o apoio incondicional do meu marido, pai do Vicente e pai do coração do Duarte, do Vasco e da Vitória, nem sem o dos avós maternos, paternos e do coração que os meus quatro filhos têm a sorte de ter. A todos eles, o meu obrigada por poder dizer "sim" ao desafio de dar um passo à frente na carreira. Sei bem que nada se faz sem ajuda, e preciso muito da vossa para gerir as rotinas e a culpa de não estar sempre lá.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

O Outono da minha mãe



A fotografia é da minha mãe e traduz o Outono que eu gosto. Mais que isso, traduz o imenso orgulho que tenho nela, que se reencontrou numa fase em que quase ninguém tem coragem de se reinventar.

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Sair da zona de conforto




Sair da zona de conforto implica uma boa dose de coragem e de loucura. Implica olhar o medo de frente, segurá-lo pela mão e ter jogo de cintura para umas vezes deixar que ele nos guie e para outras, deixarmo-nos guiar por ele; sem tretas do género "ah, eu não tenho medo de nada" ou "isto é tão fácil como beber água!". Às vezes não é e não faz mal.
Sair da zona de conforto implica ser humilde para aprender o que não se sabe ainda e ser seguro para fazer o que se sabe bem. E implica viver bem com os dois lados da mesma moeda, sem falsas modéstias nem complexos de inferioridade. E também implica conviver com o caos durante um tempo; o tempo que é preciso até tomar o pulso a uma vida nova, até ganhar tempo para voltar a respirar fundo, até nos apropriarmos de uma existência diferente. E boa.
Sair da zona de conforto implica ter uma zona de conforto para onde voltar todos os dias, sem excepção. Implica ter rede, ter um ninho, ter colo e mimo e paz num sítio qualquer. Implica ter onde recarregar baterias, onde carpir mágoas, lamber feridas para voltar à vida lá fora.
Sair da zona de conforto implica pedir ajuda a quem se confia e aguentar firme em terreno pantanoso. Implica aprender a separar o trigo do joio e viver bem com isso.
Sair da zona de conforto implica ter vida que nos sustente, família, amigos, gente que nos acolhe no matter what. E implica lucidez para estabelecer limites e para ultrapassá-los só quando vale mesmo a pena.
Sair da zona de conforto implica lidar com a crítica dos outros e de nós próprios sem desabar. E implica distinguir claramente a que constrói da que derruba. 
Sair da zona de conforto implica precipícios diários, pontes diárias, perdas e ganhos. E implica distanciamento para ganhar perspectiva.
Sair da zona de conforto implica um exercício de humildade constante e a certeza absoluta de que há vitórias que nem sempre acrescentam e fracassos que, às vezes, são milagres.
Sair da zona de conforto é uma viagem do caraças que dói, que constrói, que destrói, que fortalece. É a vida.

domingo, 26 de novembro de 2017

Dos sinais [neste Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres]

Há uns anos tive um namorado que me levantou a mão porque ao servi-lo, deixei cair um bocado de comida na toalha de mesa. Achava eu que o amava perdidamente e acho que à minha maneira da altura, amava-o perdidamente, sim.
A mão levantada que não chegou a cair na minha cara mas que caiu definitivamente na minha alma, foi o gatilho para perceber que não poderia mais permanecer naquela relação que, aliás, já tinha dado sinais de pouca saúde. Sinais que até ali, até àquele exacto momento em que a sua mão quase desceu sobre mim, escolhia sempre esquecer.
É por causa desses sinais que escrevo este texto. Porque normalmente eles existem sempre, mas nem sempre escolhemos atendê-los, investidas que estamos num pretenso amor, numa pretensa culpa, num pretenso desamor próprio, numa pretensa esperança de que algo mude, numa pretensa ilusão que pode sair-nos cara. Demasiado cara.
Os sinais, aqueles mini acontecimentos a que escolhemos não dar importância mas que despertam o nosso instinto de auto-protecção, são o que nos pode salvar de um destino de merda. E seja por orgulho próprio, por medo, pelo que for, vale a pena escutá-los, acolhê-los e dar o salto. Dar o salto sempre. Por nós e por tudo aquilo que ainda merecemos viver.

sábado, 25 de novembro de 2017

Uma proposta indecente

Só conhecia o Pedro Rolo Duarte dos jornais, da televisão e da rádio mas, à descarada, mandei-lhe um mail com o assunto "uma proposta indecente" a convidá-lo para escrever o Prefácio do livro "As Mulheres Não Sabem Estar Caladas" que, em 2014, publiquei com duas amigas e que era a compilação de textos dos blogues que cada uma escrevia. Esperávamos uma resposta negativa politicamente correcta, mas ao contrário recebemos um "sim" e um convite para um café a quatro, para perceber melhor o que esperávamos dele. Encontrámo-nos na Pensão Amor, mortas de nervos, tomámos um gin, não nos calámos (como o livro prometia) e apaixonámo-nos pela simplicidade e generosidade do Pedro. 
Passado pouco tempo, recebi um mail seu com o Prefácio que agora publico aqui, e com a indicação de que poderíamos "(...) editar, cortar, ou mesmo deitar fora (...)".
Esta foi a generosidade do Pedro com três mulheres que não conhecia de lado nenhum. Uma generosidade que acabou por se estender à apresentação do nosso livro no dia 8 de Maio de 2014 (na véspera do meu casamento), e no testemunho que deu a um programa de rádio em que fomos entrevistadas e que nos pôs às três a chorar.
Este Prefácio é o legado que me deixou a mim, à Carla e à Ana e este post é o singelo agradecimento que lhe deixamos (acho que posso falar em nome das três)...

"Prefácio

E se elas se calam?

Até conhecer a Ana Almeida, a Carla Rocha e a Marta Moncacha, eu achava que as mulheres não sabiam estar caladas. Agora que as conheço, tenho a certeza. E isso é bom, porque convoca, inspira  e compromete o livro que tem entre mãos.
Ora, a primeira virtude deste livro reside nele mesmo: o leitor só as deixa falar quando quer, quando lhe apetece. Elas estão ali, à mão de semear, mas obedientes ao dono do livro, que o lê ao seu ritmo, no seu tempo. Parece misógino? Talvez seja. Mas também é verdadeiro: este livro é seguramente o único momento em que estas três mulheres se deixam ficar.
No resto, basta lê-las para se entender o que senti quando as conheci pessoalmente: não se calam nem se deixam ficar. E essa é a qualidade que as distingue, que as fez chegar a um livro, e que me derreteu sem dó nem piedade.
Quis o destino que as três se encontrassem. Primeiro, na mesma geração, com vivências semelhantes, com um sentido de humor próximo, com cumplicidades em dose generosa - ainda que com todas as diferenças, como a cara de qualquer um de nós: sinal aqui, ruga acolá, dente mais afastado, queixo mais afilado. Depois, quis (também) o destino que se encontrassem no mesmo local de trabalho e, por fim, na mesma plataforma - a blogoesfera. Se fosse combinado, não correria tão bem: aos poucos, em cada um dos seus blogues, foi nascendo um conjunto de ideias, de textos, de desabafos, de observações, que se complementam e completam, e que até quando se opõem acabam por se amigar. Sendo um livro com seis mãos, tem na verdade uma única - a mão comum destas mulheres tão diferentes e, afinal, tão próximas
O que primeiro me atraiu (confesso: só conhecia um dos blogues até ser desafiado para este texto) foi a atitude e a pose das autoras: despojadas, simples, com um apurado sentido de humor. Falam de coisas sérias, mas não se levam demasiado a sério. Sabem rir de si próprias, mesmo no meio do caos e da desgraça. São pessoas comuns nas suas vidas - mas incomuns e extraordinárias, porque têm a capacidade de transformar o óbvio do dia-a-dia em textos, exclamações, crónicas, que nos deixam ora a rir, ora a pensar, ora com uma pontinha de comoção, até mesmo com uma saudável inveja.
O amor da Marta deixou-me com saudável e doce inveja, e foi essencial para alguns dias mais cinzentos. Como ela escreve, há sempre quem precise de saber que exista. Às vezes, para ganhar balanço e saltar. E saltando, encontrei-me com a Carla na esquizofrenia que é a modernidade, e que sinto diariamente: Comprei o jornal i por causa da Assunção Esteves e o Blitz por causa do Nick Cave. Insanidade ou mundo interior? Tombo para a primeira. Tombando e tentando endireitar-me, revi-me nas palavras da Ana: Nem sempre são os choros que fazem mais barulho. Há silêncios piores.
Sou homem mas nem por isso deixei de me identificar, de me rever, e de ter vontade de telefonar a qualquer delas para lhes dizer “é que não é mesmo nada disso, ou podia ter sido escrito por mim. Este livro tem esse efeito: parece nosso, sendo delas, página a página, nos encontros e desencontros que qualquer leitor tem com a Ana, a Carla, a Marta. Juntas ou separadas - em rigor, separadamente juntas na vida e neste livro.
No fim, volto ao principio. Depois de as ler, depois de as conhecer, a duvida que me resta, mistura de pergunta e receio, é outra: e se elas se calam?
Falo por mim: não quero que isso aconteça. Neste livro e na vida.

Pedro Rolo Duarte

Abril 2014"