domingo, 15 de outubro de 2017

Sonhei contigo esta noite!


Voltei a sonhar contigo esta noite. Olhavas-me cego, como se não me visses, e nessa cegueira eu não te reconhecia. Disseste-me, sem nenhum tremor, que já não me amavas, que tudo se havia perdido e que nós já éramos um passado longínquo. No princípio não quis acreditar, mas a tua voz soava firme e o teu rosto mantinha-se impávido como uma pedra. Não te reconhecia nessa altivez e nessa certeza assustadora e lembro-me que deixei cair uma lágrima; uma única, porque a tua frieza não me permitiu mais nada. Nem um adeus. Nem um amei-te demasiado. Nem um  foste a mulher da minha vida. Nem um tenho pena que isto nos tenha acontecido. Simplesmente mantiveste-te impassível, como se não entendesses o desgosto que a minha pele desenhava sobre ti. Como se não entendesses nada. Como se nunca nada, entre nós, tivesse acontecido.
Afastei-me devagarinho, ferida de morte por dentro. E tu; tu nunca olhaste sequer para trás.

Acordei e aninhei-me a ti. Senti o teu calor e o teu cheiro da noite, senti os teus pés a tocarem os meus, como de costume. Nenhum sinal daquele "tu desconhecido" do meu sonho. Nenhum sinal daquele pesadelo que, mais coisa menos coisa, me persegue desde que estamos juntos.
Volto a fechar os olhos contigo agarrado à minha cintura. E adormeço com o mesmo medo de sempre: o de te perder. Pior que isso, medo de ter sido enganada pela Vida, que me ofereceu de bandeja o Amor.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Não pinto o cabelo há 9 meses!


Não pinto o cabelo há nove meses. O tempo de uma gravidez. O tempo que dura a mudança de chip sobre tantas coisas. O tempo de pousio para integrar, interiorizar e estabilizar. São nove meses de certezas sobre esta decisão, porque tenho o cabelo infinitamente mais saudável, porque poupo tempo e dinheiro e porque me olho ao espelho e me reconheço.

[se te queres juntar a nós ou, simplesmente, começar a pensar sobre o assunto, junta-te ao grupo de facebook, Mulheres de Prata]

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Ter um filho é um desporto radical!


Foi há um ano e meio que a nossa vida mudou radicalmente. E não uso o termo "radicalmente" de forma leviana, porque acho mesmo que ter um filho é das coisas mais radicais que podemos fazer na vida. Mais que saltar de pára-quedas, subir o Evereste, correr uma maratona ou emigrar. Se pensarmos bem, ter um filho é a única decisão que é para a vida, e também é a única que liga pessoas para a eternidade, porque independentemente do que lhes aconteça enquanto casais, elas ficarão unidas pelo "simples" facto de serem pais; essa espécie de estatuto que se sobrepõe a todos os outros, porque é vitalício; uma tatuagem no coração e na alma e no corpo todo.
Passado este tempo, meu amor, temos passado por algumas mudanças: o crescimento do nosso bebé e tudo o que isso implica e a ida para o outro lado do mundo do pai dos meus três filhos mais velhos (teus filhos do coração) com as alterações na dinâmica familiar que isso também implicou. E por mais que todos os dias (literalmente todos os dias!) façamos um esforço para não nos esquecermos de que existimos enquanto casal, é difícil. As solicitações são gigantes e constantes e o cansaço não ajuda. Quantas vezes prometemos um ao outro que depois dos filhos na cama vamos namorar, beber um copo de vinho ou ver uma série qualquer, e nos deparamos com a incapacidade física de nos mantermos acordados para trocar três frases seguidas? É frustrante, eu sei, mas sabes a parte boa? Enquanto sentirmos falta um do outro é bom sinal. Enquanto tivermos saudades de estarmos só os dois, quer dizer que  estamos alerta e estar alerta é simplesmente continuar a querer o pacote todo: a falta de tempo, os beijos de raspão, as conversas interrompidas a meio, a casa em estado de sítio, os amuos e as birras. E depois, o resto, a fatia maior, tudo aquilo que, afinal, nos mantém perdidamente apaixonados.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Felicidade pura!


Quando me separei do pai dos meus três filhos mais velhos tive muito medo. Por eles, por mim e por tudo aquilo de que largava mão. Ficaram amigos para trás, pessoas queridas, família eterna dos meus filhos que deixava de ser a minha, rotinas confortáveis, gente boa que magoava sem querer.
Passados alguns anos, um segundo casamento, um quarto filho, um punhado de amigos novos e outros antigos e eternos, e uma família ganha, olho para esta foto e tenho certezas. Só certezas.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Todas as mães são bipolares!







E depois do caos, há dias destes; dias em que conseguimos pôr tudo em perspectiva; dias em que todas as pragas que rogámos à vida, todos os gritos, todas as lágrimas e todos os "arrependimentos" se desvanecem, e se transformam em melodramas de filme de Domingo à tarde.
Só até à próxima, claro, que todas as mães são um bocadinho bipolares...

sábado, 7 de outubro de 2017

Mãe politicamente (in)correcta!

[a nossa cozinha, depois de um tornado chamado "Vicente"]

Todas sabemos que ser mãe é a melhor coisa do mundo, que os filhos são-o-nosso-ai-jesus, que são cansativos mas que não conseguiríamos viver sem eles, que nos dão as maiores alegrias, que nunca mais somos as mesmas depois de parir, enfim, todas nós somos mais ou menos contaminadas com estes pensamentos-mito, que tantas vezes nos toldam a razão e nos arrasam o coração, tal a culpa em que andamos quando não sentimos nada disto... muitas vezes, convenhamos.
Quem nunca se sentiu arrependida de ter filhos que atire a primeira pedra, quem nunca teve vontade de emigrar no caos da maternidade que atire a primeira pedra, quem nunca chorou baba e ranho fechada na casa-de-banho que atire a primeira pedra, quem nunca achou que  a vida tinha acabado com o nascimento de um filho que atire a primeira pedra, quem nunca imaginou uma vida paralela à escolha da maternidade que atire a primeira pedra. Eu não posso atirar nenhuma, porque embora seja muito feliz com os meus quatro filhos, também sou o meu inverso muitas vezes: aquele reverso da medalha em que me sinto miserável, exausta e invadida no tempo e no espaço a todo o momento.
Este blogue pode não servir para nada para quem está aí desse lado, mas para mim, é um divã. Obrigada.

PS: Com o devido respeito, não me venham dizer que é mesmo assim, que há dias piores que outros, ou aquela pérola "foste tu que escolheste". Sim, fui eu que escolhi e ainda bem; quanto ao resto, sei isso de cor e salteado vezes quatro. Sem qualquer ironia, ajuda se puserem corações, aquelas mãosinhas de força e tudo o que quiser dizer "estou solidária contigo". O resto, esqueçam. Obrigada.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Pai, (pai)drasto e outros amores!


Já te conhecia no papel de (pai)drasto. Conhecia a tua generosidade e essa capacidade de amares incondicionalmente; de te entregares a circunstâncias que não fizeste acontecer, mas que acolheste sem pestanejar. 
Conhecer-te, contudo, no papel de pai é outra coisa, ainda. É outro papel, outro deslumbramento, outra descoberta. E fazer parte (também) disto contigo, é mais um privilégio.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Não são as rotinas que matam relações!


Nos tempos que correm, namorar é quase uma miragem. Os dias são cheios e confusos e barulhentos e as noites são curtas e interrompidas e lixadas. Restam-nos os intervalos da vida: as viagens de carro para o trabalho e de volta a casa; as horas de almoço; a pausa para café; os minutos (poucos) em que nos escondemos na cozinha para dar beijos (e apalpões), os tempos mortos que nos dão vida.
Não é fácil, mas ninguém disse que seria. E também não é impossível, embora haja quem ache que sim, que as rotinas dão cabo das relações. As rotinas são o bode expiatório daquilo que, na verdade, são as pessoas que deixam de fazer: mimar o outro, valorizar o outro, conversar com o outro, amar o outro. E nada disso depende das rotinas; depende de cada um de nós e desta vontade férrea (e comum, ou não funciona!) de fazer acontecer. Porque quando essa vontade morre, nem as rotinas nos salvam.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Desabafo de uma mãe exausta!


Há dias em que sentes que és uma farsa.
Tentas fazer tudo bem fora de casa, dás o litro, escolhes as melhores palavras para falares com toda a gente, os melhores momentos para evitares melindres, fazes das tripas coração para seres a tua melhor versão. E depois, quando finalmente chegas a casa para os teus, para o espaço onde tens que dar o melhor de ti, desabas e transformas-te numa fotocópia tua de má qualidade.
Nesses dias, como o meu de hoje, ajuda rever fotos de momentos bons (como esta). E também ajuda dormir.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Carta aberta ao Papa [da Vitória]



Talvez porque em casa andemos a falar muito sobre isto de proteger o Planeta em que vivemos e sobre de que forma cada um de nós pode mudar o curso dos acontecimentos, a minha filha decidiu escrever uma carta ao Papa, que me pediu para divulgar aqui.
Deixo-vos o seu apelo:

"Bom dia Papa,

Talvez este documento seja para animar os dias, mas há uma coisa que me anda a preocupar: eu tenho 10 anos e preocupo-me com o ambiente. Vi um documentário que dizia que temos 20 anos para mudar os nossos hábitos; isto inclui, fazer hortas, para que não compremos noutro País para não gastar recursos, gastar menos energia e fazer a reciclagem. Basta isso para que o nosso mundo seja saudável.
Sempre que eu tento falar com os meus colegas sobre isto, eles não me ligam nenhuma; falam por cima de mim e acham isso uma piada. Eu sinto-me um bocado frustrada, porque parece que estou a falar para o boneco.
Por favor, Papa, faz acreditar àqueles que acreditam em ti que sejam mais preocupados com o ambiente para cuidarmos deste pequeno mundo!


Vitória, 10 anos, Portugal"

Acrescento à sua carta, que no outro dia sonhou que estava no meio de um dilúvio. Acordou a dizer que quer pertencer a uma organização que possa salvar o Planeta.

Num mundo que parece em colapso, acredito que a única saída da Humanidade é a educação dos nossos filhos. Estão à mão de semear e são facilmente permeáveis ao Amor, assim sejam amados na justa medida. Não desperdicemos mais este recurso.

sábado, 23 de setembro de 2017

Os olhos também comem!


Hoje foi um dia do caraças, depois de uma semana do caraças! Quatro filhos e eu, sem filtros. A vida real não tem filtros a não os que vamos pondo por aqui para nos enganarmos a nós mesmos; ou simplesmente para tornar tudo mais fácil, que os olhos também comem.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Aviso à navegação!


Por tudo aquilo que já escrevi nos posts anteriores, sou intragável em Setembro. Amiga desnaturada, mãe chata (muito chata!), filha (quase) desaparecida em combate e amante miserável.
Para quem tiver paciência para esperar por uma Marta mais tranquila, já não falta tudo...por enquanto, é decorar horários vezes quatro, afinar rotinas vezes quatro, gerir maus-humores vezes seis e tentar que as veias do pescoço não saltem de elevar (ligeiramente) a voz quando as tropas lá de casa não obedecem.

[Magda, quantos cursos intensivos do "Berra-me Baixo" posso fazer?...]

sábado, 16 de setembro de 2017

Bora ser felizes?


Entrei numa nova fase. Já ninguém me pergunta porque é que não pinto o cabelo, nem faz comentários desagradáveis a respeito. Os únicos que recebo são positivos e quem não gosta inibe-se de comentar o que quer que seja. Eu agradeço. Também não desato a distribuir opiniões gratuitas sobre a senhora gorda, magra, às bolinhas brancas, baixa, alta... Esta ideia de que, em nome da "verdade" podemos dizer tudo, é a maior mentira que contamos aos outros e a nós próprios. Nem tudo se diz; menos ainda quando é desagradável e não acrescenta.
Isto para dizer a quem está a passar pela fase chata da "transição", que os outros pensam coisas (nós também). E então? Quem muitas vezes nos diz que estamos mais velhas ou que vamos ficar envelhecidas de cabelo branco, também tem pés de galinha, uma verruga no queixo, um olho torto, uma camisola de uma cor que não gostamos. Mas isso não nos dá o direito de desatar a opinar, ou dará?
A vida dos outros interessa-nos na justa medida em que estamos interessados na nossa; se ela nos "alimenta", se nos preenche, se nos sacia, não precisamos de viver a dos outros. Mas se, ao contrário, ela nos desilude, os outros, as suas decisões, as suas alegrias, podem passar a ser o centro do universo. E é uma pena.
Bora ser felizes?...

[post publicado no grupo de facebook Mulheres de Prata]

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Cara de Encarregado de Educação em Setembro...



Ele é assinar cadernetas; ele é assinar recados que vieram hoje das escolas e da creche; ele é procurar os lápis de cor que sabemos que temos (mas onde?); ele é ouvir cada filho à vez sobre novos professores e antigos, novos colegas e antigos, novas regras da escola e antigas; ele é ouvir dizer que já se está farto da escola ou que se adora a escola; ele é fazer o salto encarpado para ter os miúdos na cama antes das dez da noite; ele é correr atrás do bebé o tempo todo; ele é não esquecer que o marido existe; ele é comprar a pílula para não vir nenhuma Frederica (e para evitar que a hipotética avó de uma hipotética Frederica tenha uma apoplexia nervosa); ele é sorrir e acenar; ele é articular as palavras e o pensamento para não sair merda; ele é gritar para que as meias e os boxers não fiquem mortos no meio do chão do quarto (e nós, mortos com o cheiro das hormonas em ebulição!); ele é tentar ir dormir antes da uma da manhã; ele é comprar o material que os professores de EV, ET, E-o-diabo-a-sete decidem que querem, quando já gastámos cinquenta vencimentos com livros e material escolar; ele é ter uma paciência de jó; ele é saber que isto tudo passa. Mas até lá, ele é aguentar firme que um dia ainda teremos saudades disto tudo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Queridos Encarregados de Educação, ainda estão vivos??



A todos os pais que hoje andaram a correr de reunião em reunião, que fizeram mil contas de cabeça para conjugar horários escolares e actividades extra-curriculares, que carregaram cartões de refeições, que compraram passes, que decoraram quinhentas regras pedagógicas, que anotaram mil e um recados, que trabalharam pelo meio, que fizeram jantares, que ajudaram a preparar as primeiras mochilas do ano lectivo, que fizeram cinquenta mil recomendações, que repetiram tudo o que andam dizendo desde que os filhos nasceram, que ainda estão vivos...
o meu bem haja!

[bebam um copo, façam o amor e durmam; a sério. Os dias que se avizinham, em que "a máquina ainda não está oleada", são  para esquecer]

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quem é que de perto é normal?



Ando maluca com o livro maluco da Tati Bernardi "Depois a Louca Sou Eu", que põe a nu os ataques de ansiedade e as fobias da autora, num relato inteligente, duro, cómico e real. O livro fez-me pensar nas minhas próprias loucuras/manias/fobias (o que lhes quiserem chamar!), que quando partilho com amigos mais chegados, e apesar de me conhecerem de perto, ficam com um ar desconcertado.
Nunca me fez sentido partilhá-las publicamente, mas confesso que inspirada pela Tati (posso chamar-te assim, Tati?), decidi que loucos somos todos, uns com maior capacidade autocrítica que outros, uns mais loucos que outros mas, como diz uma grande amiga, quem é que de perto é normal? Eu não sou; vocês são?...
Posto isto, desafio-vos a partilhar uma coisa (uma coisinha apenas) louca sobre vocês. As minhas 10 ficam aqui para a posteridade:

1. Benzo-me de cada vez que passo por uma ambulância (ou de cada vez que ouço sirenes), facto que já me trouxe situações cretinas, como quando me benzi a ver passar a comitiva do Benfica;
2. Como doces e gorduras à pressa, porque tenho a crença, mesmo crença, de que se o fizer num nanosegundo, o corpo não se apercebe de nada e não engorda;
3. Os sapatos da família toda estão arrumados com o direito à frente do esquerdo, para dar sorte;
4. Sempre que vou dar um beijinho de boa noite aos meus filhos, saio dos quartos a arrastar o pé direito...para dar sorte (também arrasto o pé direito antes de entrar no carro, para entrar no trabalho e sempre que o dia me assusta, arrasto-o a qualquer momento);
5. Adoro falar sozinha em frente ao espelho e já fui entrevistada pela Oprah e pela Júlia Pinheiro (leia-se, eu faço de Oprah e de Júlia e eu faço de Marta), centenas de vezes (também já fiz de Cristina Ferreira e de Marta dezenas de vezes);
6. Já usei lentes de contacto verdes, já fui trabalhar de rabo de cavalo postiço até ao rabo e tenho uma peruca comprida preta, com a qual ainda vou sendo entrevistada na casa-de-banho algumas vezes (pela Oprah, pela Júlia e pela Cristina, leia-se);
7. Quando não me apetece aturar aos meus filhos, adoro fingir que desmaio; agora já não funciona;
8. Zangada com o meu homem, já fingi que fugi de casa (fiquei uma hora no estendal do prédio a chorar e liguei-lhe para me ir buscar; ele ria às gargalhadas);
9. Tenho uma placa de silicone na cabeça e acho que é por isso que não sei fazer uma única conta (não dou explicações de Matemática aos meus filhos desde o 2º ano e juro que não estou a exagerar...os problemas do Marco que emprestou livros à Adelaide que por sua vez os deu à Clarice dão conta de mim; as contas dão conta de mim, mas o silicone explica quase tudo na minha vida e isso acalma-me);
10. Desde o filme "Tubarão" que tenho pavor de mergulhar no mar e em piscinas... ... ...pois.

Fui.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Cair na real



Tivemos de fugir de madrugada e deixar tudo para trás. A casa, as recordações, as roupas, tudo o que não podia vir mais agarrado à nossa pele. Enfiámo-nos no carro à pressa e em pânico, os putos lá atrás encafuados e sem fazer perguntas (nunca fazem sempre que percebem que é assunto sério!), o bebé a dormir. O meu homem pôs prego a fundo e saímos dali depressa, para um destino assustador e desconhecido, mas isso seria a preocupação seguinte. Por agora, precisávamos fazer o caminho em segurança e aprender a dominar a mente para dosear as preocupações. Sabia que se não fôssemos capazes disto, enlouqueceríamos em pouco tempo.
Dou por nós a atravessar montes, vales, montanhas e toda a espécie de terrenos difíceis e acordo deste pesadelo quando ele se torna tão insuportável que o meu cérebro interrompe tudo: o exacto momento em que somos forçados a meter o carro num lago gigante, junto a um desfiladeiro, e em que olho para trás e vejo o meu bebé a sumir-se debaixo de água, sem que lhe possa chegar.

Já de olhos bem abertos, vejo que estou no sossego do Alentejo, na cama com o meu marido e com os filhos perto, aconchegados e seguros. A madrugada silenciosa só é interrompida pelo cantar de dois galos, um mais longe e outro logo ali, e nos quartos ao lado, dorme o resto da família; um silêncio doce, sem sobressaltos.
Tenho passado o dia inteiro a pensar neste pesadelo. E em contra-ponto, nesta paz e nesta segurança em que os nossos filhos ainda dormem. E nos milhares de casais que ao contrário de mim e do meu homem, deixaram filhos para trás, viram-nos morrer pelo caminho, fizeram-nos em campos de refugiados ou trouxeram-nos com eles, à mercê do medo, da guerra, de lagos gigantes, de mares infinitos, de caminhos tortuosos. Alguns deles com quem trabalho todos os dias, e que pelo simples facto de existirem na minha vida, me põem no lugar sempre que preciso cair na real.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Azul


Casei com esta cor, porque já tinha tido a minha dose de branco. Nada contra; o meu primeiro casamento foi como quis, como fazia sentido e foi muito bom. Mas a vida muda e nós mudamos com ela (ou será ao contrário?), e chega uma altura em que o que era já não é, e faz parte.
Casei de azul. Cor do céu, do mar, do rio à minha porta e da 125 dos Trovante e da minha adolescência. Casei outra vez como queria e agora não quero mais nada. Ou por outra, quero a vida inteira disto tudo. Contigo, meu amor.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O meu Setembro é um mês de ginástica, mas não é no ginásio!


Setembro chegou há 5 dias, mas como em todos os setembros desde que fui mãe, o tempo escasseia para tudo e também para escrever por aqui. Acho que já escrevi isto noutros anos nesta altura, mas repito: o nosso ano familiar não começa em Janeiro, mas em Setembro, porque é neste mês que começa tudo: as escolas, as actividades extra-curriculares, as rotinas novas (dos miúdos e dos graúdos!), as marcações de consultas médicas para a família toda, a resolução de "pendentes", (aqueles berbicachos que fomos empurrando com a barriga até virmos de férias e que agora não podem mais ser adiados), as preocupações e os sapatos fechados. É também em Setembro que a nossa ginástica financeira familiar é feita à boa maneira das ginastas de leste: espartana, rigorosa, detalhada ao milímetro, cansativa e cheia de espargatas, saltos encarpados e cambalhotas, sempre a evitar uma lesão qualquer que nos deite ao tapete. São os livros e o material escolar (lanço daqui uma prece aos avós dos meus três filhos mais velhos, que todos os anos rumam com eles à Staples para comprar grande parte do que irão precisar durante o ano!), são as reinscrições nas actividades vezes três (e agora também a creche do Vicente), são os ténis, os fatos de treino, a substituição das calças que ficaram pequenas, das camisolas que ficaram curtas, das botas que ficaram apertadas. São as idas ao Dentista e ao Dermatologista (depois da praia), as minhas mamografias que foram ficando para trás e que não pode ser, a vacina dos 15 meses do Vicente que não faz parte do Plano Nacional de Vacinação, mas apenas do plano financeiro cá de casa...enfim, já estou cansada disto tudo e ainda só estou a teclar!
A minha questão é: o vosso Setembro também é assim, ou isto é coisa minha?...