quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Socorro, vivo com o padrasto dos meus filhos!


Ninguém sonha em dar aos filhos um padrasto ou uma madrasta. A família idealizada não inclui estas personagens que, aliás, nos habituámos a ver como monstros nos contos de fadas da nossa infância.
A vida, contudo, é bem mais criativa e surpreendente que qualquer história infantil, de modo que nos coloca no caminho situações que não esperávamos e pessoas com que não contávamos. O padrasto e a madrasta dos nossos filhos, podem ser algumas delas.
O medo vem naturalmente. Quando o Rui veio viver comigo e com os meus filhos, receei que não se adaptassem, que não se gostassem ou que, ao contrário, a sua presença viesse substituir a figura do pai. Não aconteceu nada disso, porque a sua integração na família foi tão natural, quanto clara. O Rui era o namorado da mãe, mas não era o pai de ninguém. E ainda que assumisse muitas funções normalmente atribuídas aos progenitores, o Rui tinha o seu papel, sem precisar assumir nenhum outro que não lhe pertencia.
Esta clareza de papeis é, em meu entender, a chave para um processo de integração bem sucedido. O padrasto (ou madrasta), precisam acolher a história a que nunca pertenceram, aceitar que nunca lhe pertencerão, e ser proativos na construção de uma nova história por estrear, onde possam assumir um papel decisivo. É um lugar de construção, onde tudo está em aberto, e essa circunstância é bela e aterradora ao mesmo tempo. Ser uma "tela em branco" é tão desafiante quanto assustador! É preciso coragem. É preciso paciência e alguma capacidade de resignação. É preciso saber lidar com a frustração de se tentar ser tudo, mas nunca se ser o bastante. É preciso segurança para gerir uma posição protagonista sem nunca se ser a personagem principal. Basicamente, é preciso doses massivas de Amor. Amor pelos filhos do coração, amor pelo(a) parceiro(s), amor pelo pacote todo.
E depois...depois é quando a magia acontece, e de padrasto se passa a (pai)drasto. E de madrasta se passa a (mãe)drasta. E é aí, nesse posto conquistado, que os verdadeiros desafios começam. Como as mães e os pais de todo o mundo, ao fim ao cabo.

[No dia 28 de Fevereiro, vou estar na Red Apple a falar sobre Pais & Filhos do Coração. Apareçam!]

4 comentários:

Titica Deia disse...

Deixou-me a pensar realmente, o quão mal vistos os padastros e as madrastas sao aterradores nas nossas histórias infantis do antigamente!!

Anónimo disse...

Bolas!
Você até é uma mulher interessante... será que não pode escrever sobre outro assunto!? Não tem um outro assunto mais normal???

Dolce Far Niente disse...

Caro(a) Anónimo(a), nos dias de hoje este é um assunto "normal". Em vez de "normal", prefiro chamar-lhe comum. E ainda que não fosse, é um assunto que me diz respeito e sobre o qual gosto de escrever.
Agradeço o elogio.

Anita disse...

Aquele penúltimo parágrafo comoveu-me... é mesmo isso Marta... é mesmo isso. Doces massivas de Amor. Pelo pacote todo ♥ Obrigada pela clareza de pensamento, bom fim de semana ☺