segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Decisões

Às vezes dou comigo a pensar como comecei a correr. De um segundo para o outro. Num momento estava em casa com uma neura daquelas, e no outro corria 5km seguidos com partida e chegada na Vela Latina.
Fui sempre assim em decisões importantes. Importantes para mim, pelo menos.
Na escola primária mudei de letra, literalmente, de um dia para o outro. A minha mãe conta a história bem: tinha uma filha com uma letra medíocre e praticamente indecifrável num dia, e no outro passou a ter uma filha com letra legível e redonda. Eu passara a tarde inteira a treinar a mudança, no exacto momento em que decidi para mim própria que a letra bicuda e marreca já não me servia. E como faço sempre em mudanças de fundo, nunca aviso que as vou fazer. O medo de falhar impede-me de partilhar antes do feito conseguido.
O mesmo aconteceu comigo já adulta e com as minhas camisolas de gola alta. Houve um período longo da minha vida em que o meu Outono e Inverno eram passados de camisola de gola alta. Um escudo de malha que me protegia a garganta, achava eu. Agora acho que me protegia de alguns desertos.
Passava a vida doente e tinha a teoria de que se destapasse o pescoço, ficaria ainda pior.
Um dia entro numa loja qualquer e vejo a lojista com um colo nu maravilhoso, adornado com um colar de cortar a respiração. Acho que lhe perguntei se não tinha frio no pescoço. Riu-se e disse-me que não. Que nunca tinha frio nessa zona. Aquilo fez-me eco, não sei porquê. Queria ser assim: livre de golas altas e de toda a espécie de faltas de ar. Desde esse dia em diante, nunca mais as usei. Dei as camisolas todas, numa espécie de auto de fé sem fogo. E não adoeci.

Às vezes dou comigo a pensar como comecei a correr. Para onde corro e a que metas quero chegar.
Um dia descubro-lhe o sentido. Até lá, gozo a viagem.

2 comentários:

Rainha Ervilha disse...

Eu ainda hoje escrevi que quero (re)começar a caminhar. Não me aventuro ainda na arte da corrida. Um passo de cada vez (que a bem dizer, é assim que se caminha...). Mas o sacrifício tem um propósito. Ouvir da boca da minha filha que estou flácida foi o estimulo! Ver o quanto corres é uma inspiração!
(e desculpa o tu-cá-lá, mas leio-te há algum tempo, que já parece que te conheço...)
http://arainhaervilha.blogspot.pt/

Miss F disse...

Revi-me nessa parte de nunca "anunciar" as mudanças. Mudo quando é preciso e sempre penso com os meus botões, pesando prós e contras antes. Mas só anuncio exatamente quando dou a volta! Beijinho*