domingo, 3 de fevereiro de 2019

Os teus filhos querem-te de volta!


O meu mundo desmoronou quando o pai dos meus três filhos mais velhos, há uns anos, me disse que queria residência alternada. Queria isto dizer, que passaríamos a viver com os nossos filhos, semana-sim-semana-não.
Terá sido a fase mais dura da minha vida, porque fui assolada por muitos medos:
Medo de perder o amor dos meus filhos.
Medo de lhes perder o rasto. 
Medo de perder o controlo sobre as suas vidas.
Medo de me sentir perdida e vazia.
Medo de não saber o que fazer nas "semanas sem filhos".
Medo que os meus filhos passassem a sentir-se "visitas" em nossa casa.
Medo que não fossem bem cuidados.
Medo que tivessem medo.
Medo de os perder.
Medo de não me achar.

Tudo o que implica sair da nossa "zona de conforto" e entrar em território desconhecido, é ameaçador e traz ao de cima os medos mais irracionais. E a residência alternada é, para muitas mães, profundamente assustadora, porque põe a nu a imprevisibilidade das nossas vidas, revelando a incapacidade que tantas vezes temos, de controlar todos os factores.
Uma mãe dizia-me no outro dia "Marta, eu não fui mãe para só ver o meu filho semana-sim-semana-não", e eu percebo a perplexidade e a tristeza. Somos mães (e pais), para vivermos a experiência na totalidade. Para acordarmos e adormecermos com os nossos bebés todos os dias, para os levarmos e trazermos da escola todos os dias, para os vermos todos os dias. Ninguém nos avisou, logo depois de parirmos, que a vida pode mudar e que aquele Ser que se torna o centro das nossas vidas em nano-segundos, pode não estar sempre ali, à nossa espera nem dependente de nós.
Confrontarmo-nos com a ausência física dos nossos filhos, com as camas vazias, com a casa em silêncio, com os lugares da mesa vagos, com os telefonemas como fracos sucedâneos do cheiro, dos abraços, dos beijos, até das birras dos nossos filhos, é demolidor. E também é demolidor confrontarmo-nos connosco próprias e com os nossos fantasmas. Em quem nos transformámos nestes anos todos? O que é que gostamos de fazer quando não somos mães? Quem somos para além da maternidade? O que nos traz energia? Este confronto carece de tempo, às vezes de ajuda, e de alguma busca interior. É preciso voltar à origem (à nossa origem), e (re)lembrar quem éramos antes da maternidade. 
Ainda te lembras?...

Se estás nesta fase, quero dizer-te que as "semanas sem filhos" são "semanas para ti".
Eu sei. É um caminho. É um longo caminho cheio de pedras, gravilha, areia na engrenagem. Been there, done that. Mas se souberes que um dia a sensação será essa, fica mais fácil. 
Ainda assim, tens que pôr pernas a caminho! Muda o teu vocabulário associado ao divórcio. Confia no outro progenitor. Assume que não podes controlar tudo. Lê um livro. Liga a uma amiga. Caminha na praia. Vai ao cinema. Acredita no poder do teu Amor pelos teus filhos. Devora a Netflix. Chora tudo o que tiveres que chorar e renasce das cinzas. Caramba, faz o que tiveres de fazer para te lembrares de quem eras e para chegares à tua melhor versão, porque os teus filhos querem-te de volta. E mesmo que já não tenhas a certeza, eu tenho: precisam de ti.


[Contacto: martamoncacha@gmail.com]

5 comentários:

Titica Deia disse...

Isso é assustador, nunca vai deixar de ser assustador!!

Anónimo disse...

Não consigo concordar....nenhuma mãe deveria ficar semana sim semana não sem ver os filhos porque o casamento acabou!
E é muito mais fácil falar quando se tem um namorado novo, quando se está a refazer a vida.
Uma mãe que acaba de "perder" a sua vida de casada e todos os sonhos que daí tinha e ao mesmo tempo tem que passar a ver o filho alternadamente é só horrível.

Se já custa ter que dividir os fins de semana, porque o pai também tem direito obviamente a estar com os filhos...

Os pais amam os filhos e também têm que estar com eles...mas dividir a vida das crianças por duas casas não concordo que seja o melhor para ninguém...e acaba com o coração de qualquer mãe...

Beijinhos
Catarina

Dolce Far Niente disse...

Querida Titica, é assustador, sim. Mas com o tempo, vai ficando mais fácil, mais suportável, mais compreensível.

Um beijinho

Dolce Far Niente disse...

Querida Catarina, nenhuma de nós está preparada para esta volta da vida. O princípio é o direito que todos os filhos têm a ambos os Pais. E sim, é muito difícil.

Um beijinho grande <3

Algures no Oeste disse...

O que escreveu é exatamente o que senti, e sinto, em relação a esta situação.
A guarda partilhada era algo impensável para mim, e no início não foi nada fácil.
Contudo, com o passar do tempo, e pensando no meu filho, tal como descreve, não se consegue "controlar tudo" e o filho também tem o direito de estar na companhia do pai (e vice-versa).
Até ver, tem corrido bem e eu que encarava tudo isto com estranheza, agora já consigo (con)viver com tudo doutra forma.
Obrigada e parabéns por 'transpor' o que sinto e penso tão bem...
Acho que só quem está nas mesmas situações, consegue entender.