terça-feira, 1 de novembro de 2016

Em véspera de Dia de Finados, vamos falar de relações moribundas...



Ter filhos é bonito, a melhor coisa do mundo e rebebébéu, mas mata muitas relações. Ou atira-as para a categoria de moribundas, que é apenas uma maneira polida de dizer que estão em morte lenta.
Já estive aí, nesse lado cinzento, mas pintado de cor-de-rosa, onde parece que está tudo bem, que os filhos são o centro do nosso universo de casal, e que essa estrutura parece indestrutível. É mentira, lamento informar. Nem está sempre tudo bem, nem os filhos estão no centro, porque o núcleo duro é o casal e não ao contrário. Agora sei que se essa parceria não estiver bem oleada e em sintonia (e isso mantém-se à custa de tempo de qualidade em comum, sem filhos por perto), a família desmorona como a concebemos. E é aí que se abrem espaços vazios, tantas vezes, brechas gigantes impossíveis de fechar.
Manter um casamento à tona depois do nascimento dos filhos é uma arte que requer mestria, paciência e resiliência. Por mais que pareça tentador, não basta esperar que passe, ou acreditar que tudo voltará ao lugar certo sem nenhum esforço humano. Na verdade, manter a relação depois dos filhos é como tudo na vida, carece de trabalho, que o tempo e o amor, por si só, não fazem milagres. É preciso forçar tempos em comum e pedir a ajuda dos avós, das babysitters, dos amigos para que fiquem com os miúdos. É preciso fazer amor para nos lembrarmos da pele e do cheiro do outro e para não nos esquecermos de como sabe bem. É preciso SMSs românticos e/ou picantes a meio do dia, apalpadelas na cozinha à revelia dos miúdos, beijos na boca, jantares a dois depois dos putos estarem todos na cama, "enrolanços" de madrugada, a meio da noite, quando der. Não vale a pena fazer grandes planos, nem muitas produções cinematográficas, porque se perdermos tempo, o bebé acorda, ou é hora de fazer outra treta mundana qualquer. 
Também é preciso dançar agarradinhos ao som de uma balada pirosa que passa na rádio, dar a mão que temos livre, enquanto a outra enfia a chucha no bebé, e fazer um esforço para não nos embrenharmos na doce tentação de ficarmos com um aspecto miserável. Há mínimos requeridos que achamos que os nossos parceiros não vêem, mas que também isso não passa de um mito. Os nossos homens podem até não reparar que pintámos as unhas, ou que já disfarçámos os brancos, mas identificam no seu radar, a auto-estima feminina {essa poderosa arma!}, a quem quer que ela pertença. Acho que todas preferimos que nos pertença a nós, por eles, mas principalmente por nós mesmas.

Se isto dá trabalho? Dá um trabalho dos diabos, quando andamos a dormir uma média de três horas seguidas por noite, há cinco meses. Mas como em tudo na vida que queremos que resulte, não há bela sem senão. E há riscos por omissão, vos garanto. Insidiosamente, sem ninguém dar conta, é demasiado fácil babar o sofá, cada um para seu lado ao final da noite, passar o tempo a discutir sobre quem vai levar o lixo lá fora, ou quem limpa o caixote do gato, ou deixar de beijar e de tocar o outro. Pequenos nós na garganta que, um dia, poderão transformar-se em cordas da forca.
Em véspera de Dia de Finados, é tempo de lembrar que as relações também morrem lentamente. E que os filhos são maravilhosos, mas não trazem saúde às relações, se nos sentarmos à sombra da bananeira. E que se ninguém fizer nada, à espera que passe, está a assinar um contrato de morte. E que amar bem dá trabalho. E que o amor não chega. E que os filhos não estão no centro do casal, porque o casal foi o início de tudo.
Vamos acabar com estes mitos e tratar de ser felizes!

21 comentários:

Isa disse...

Tao verdadeiro este post! Sem dúvida que o casal é o centro de tudo. e é esse que temos de proteger para que as coisas continuem bem. Pais felizes=filhos felizes! ;)

ML disse...

Fez-me tão bem ler isto....

Magda disse...

É tão dificil Marta. Peço tantas vezes desculpa ao meu marido por me sentir ko. Por preferir dormir a outra coisa qualquer. 3 filhos é dose. Cada um ajuda e desajuda á sua maneira. E eu sei que é preciso tempo para o casal, mas não é facil

Anónimo disse...

Tao verdade,gosto tanto duque escreve bjinho Fatima Gonçalves

sam disse...

Que banho de realidade!
Sei de tudo isso, penso em tudo isso e assusta-me tanto não conseguir fugir disso!
Pertenço àquele grupo de mães (espero que restrito mas que existe) que não tem estruturas de apoio que permitam uma noite a dois com a frequência que gostaríamos. Por força das circunstâncias sim, os filhos são o centro do meu mundo, do nosso mundo enquanto casal e está errado. Erradíssimo. Fez-me muito bem "ouvir" este sinal de alerta e vou, definitivamente, tentar encontrar formas alternativas de contornar uma realidade que me acompanha há quase cinco anos. Muito obrigada por isso :)

Anónimo disse...

E quando ja nao se tem forças para mudar... Quando nos sentimos meras tarefeiras de marido e filhos. E quando por vezes temos dificuldade de saber quem fomos e quem somos. O que fazer? Um beijinho Marta
Filomena

Anónimo disse...

Assino por baixo,a maioria das mulheres depois de serem mães,só ligam aos filhos eu sempre me f~ez impressão isso, quando dão por ela, já eles estão noutra!!E depois além de ficarem muito admiradas, ainda culpam as outras mulheres que eles arranjam!!!

Vidas da Nossa Vida disse...

Concordo em absoluto! Ainda no outro dia escrevi um post sobre isto porque sinto tanta, mas tanta falta de ser só eu e o meu marido, de estarmos sozinhos, sem crianças, sem birras, sem choros, sem bulhas de irmãos, choros e fraldas! mas neste momento não temos ninguém que nos fique com os 3 (6, 3 e 9 meses) e se a Marta tiver uma babysitter de confiança dê-me o contacto, que eu estou desesperada por uma noite com jantar a dois, vinho e dançar... sem remorsos e sem culpas. Estamos casados vai fazer 10 anos, mas os filhos vão deixando marcas e vazios no casamento, por muito que seja a família com que sempre sonhámos!

Jose disse...

Tão verdade. Se não estamos em alerta lá se vai o amor...

Anónimo disse...

Tão verdade. Com jeitinho e vontade tudo se consegue. Muitas felicidades. O texto está fantástico. Acho que a partilha de experiências é importante. :)

Anónimo disse...

Cada dia que passa gosto maisssssss deste blog. Bem haja Marta.

Bailarina disse...

Marta, a lucidez é algo que abunda por aí e isso é meio caminho andado para mudar quando não se está bem e para lutar pelo que se quer. Parabéns!

Anónimo disse...

Vejo tantas coisas, falo com tantas pessoas tentando entender meu momento, tentando justificar meu estado desistente, foi muito bom ler vc, hoje. Mas tenho uma duvida: acha mesmo que tudo isso valeria a pena num caso de parceiro bigamo (evidencia expostas e ele em negaçao total = confiança morta)?. estaria a desistir facil demais?

Sei que nao e conselheira sentimental, mas preciso de ajuda aqui.

Obrigada

Andreia disse...

Oh Marta, poderia ter sido eu a escrever isto? Não, porque não escrevo tão bem, mas encaixa tudo tao perfeito na minha pele... obrigada, cada vez gosto mais deste seu cantinho.

Liliana disse...

Não conhecia o seu blog. Fiquei maravilhada. É tão isto... e quando aconselho alguém para ter atenção ao casamento também, ainda olham para mim com uma cara "mas só me interessam os filhos. Que raio de mãe és tu?" ...

Anónimo disse...

Espetacular. Concordo 100%.
A minha mãe, separada desde que me lembro de mim (por opção dela e sempre muito activa e de bem com a vida), ao contrário do que era expectavel, sempre nos disse (a nós filhos), "não se iludam de acharem que primeiro estão os filhos e depois o casal, é ao contrário, primeiro vem o casal, e depois os filhos". Com isto ela queria dizer que de vez em quando temos de por os filhos em segundo lugar. Obviamente que ela nunca quiz dizer que se um filho precisa de nós, temos de ir primeiro ao marido, não é nada disso, é sim, com conta peso e medida, saber de vez em quando por o casal em primeiro lugar. Por vezes estamos tão porfundamente mergulhadas na criação dos filhos que vamos deixando o parceiro para segundo plano. E sem saber ler nem escrever perde-se ali uma intimidade e cria-se um ambiente estranho. Aconteceu-me um tempo logo após ser mãe, mas passou muito rápido, e ainda bem. Mas estive atenta e fiz um esforço, trabalhei pela minha relação.
:)

Anónimo disse...

Não conheia este blog...Parabéns parabens!!! Tão verdadeiro o que escreve. Tenho um de 14 e outro de 10....cada vez menos tempo para Nós....é estranho mas é verdade. Bjhos e um bem haja.

Vera Ferreira disse...

A realidade, desengane-se quem pensa o contrário!!!
Parabéns Marta! Tem uma capacidade maravilhosa de escrever com o coração!
Gosto muito de a acompanhar,tenho aprendido muito consigo, já me fez repensar em algumas situaçoes na minha vida e fez me mudar. Sou mãe de três e vivo sem dúvida em função dos meus filhos mas isso não é tudo! Espero que a vida lhe traga muitas razões para sorrir! Muitas felicidades para os seus meninos,beijinho grande e mais uma vez parabéns

Cisca disse...

Mandei este texto ao meu marido para ver o que ele acha! ;p
Muito obrigada pela "chapada de realidade"

Cisca
istoaquiloeoutrascoisas.blogspot.com

VerdezOlhos disse...

Tenho a impressão que já tinha lido algo semelhante ou pelo menos sobre o mesmo tema neste blogue e volto a comentar o texto porque me faz imenso sentido que seja como dizes, que o casal tenha de ser o núcleo duro da família, por mais voltas que a vida dê. Porque se esse estiver "bem", tudo o resto estará.
Acredito que o maior desafio de uma relação a dois seja ter filhos (porque afinal passa a ser outra coisa, um híbrido ou algo distinto até). Não dá para adivinhar o que irá acontecer e, pelo menos para mim, é assustador poder arriscar um amor por outro (por ter um filho). Eu sei, ainda não sou mãe e nem sei se algum dia o serei. Mas sei que em primeiro lugar tem mesmo de vir o meu homem, senão estará tudo perdido. Afinal, fará sentido de outra forma? Mesmo (ou, principalmente) quando se pensa ter filhos.
Obrigada pela partilha, obrigada pela verdade e por seres tão genuína e corajosa. Obrigada :)
Beijinhos

Celia Lopes disse...

Foi o primeiro post que li neste blog. Muito bom.
A realidade é que o cor-de rosa pode ter muitos tons escondidos.
Tudo aquilo que escreveu é precisamente aquilo que me atormenta, aquilo que vejo à minha volta e aquilo que faz com que ter filhos se tenha cada vez menos uma prioridade...