quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Uma vida anormal [?]

Há pessoas com vidas vertiginosamente normais.
Têm um pai e uma mãe normais. Têm filhos normais. Têm amigos normais e um trabalho normal. Têm um marido ou uma mulher normal e adoram rodear-se de pessoas normais, não vá o vírus da "anormalidade" colar-se-lhes à pele como uma sanguessuga maldita, e arrasar-lhes a vida toda.
Já eu, tenho uma certa tendência para agarrar a anormalidade que os dias me trazem. 
Tenho mãe, pai, padrasto e madrasta. Tenho quarenta anos e casei com o homem da minha vida há apenas três meses, e vivemos alegremente juntos, com três filhos que não são comuns e com um gato psicopata a quem demos o nome incontornável de Dexter.
Tenho amigos de ouro, mas também eles, pouco normais. Veja-se uma grande amiga que barrou o rosto com creme de celulite para os glúteos, ou aquela outra que mantém um quadro da sala propositadamente torto porque {diz}, condiz com a desarrumação da sua própria cabeça.
A minha mãe come brócolos e atum todas as noites, o meu padrasto dá cinquenta voltas à sala depois de jantar {diz ele} para desmoer, o meu pai passou uma noite inteira em claro, em Timor com dezasseis anos de idade, a sacudir as moscas da bicicleta nova, e a minha madrasta {cabeleireira de profissão e de coração}, muda de cor de cabelo e de penteado como eu mudo de sapatos.
Mas porque não gosto de apontar o dedo, esquecendo-me de mim própria, personifico a anormalidade em estado puro, já que me benzo sacramentalmente de cada vez que passa por mim o INEM ou um carro qualquer dos bombeiros, cheiro minuciosamente toda a roupa que visto, escrevo a fazer figas e arrasto o pé direito de cada vez que saio dos quartos dos meus filhos, certa de que se o pé direito for o último a abandonar os seus aposentos, serão felizes e saudáveis a vida toda.
Acresce o facto de ter o corpo salpicado de bolinhas brancas {já que padeço de psoríase}, tenho uma placa de um material estranho na cabeça, fruto de um traumatismo craniano com afundamento que fiz com sete anos, e desenvolvi uma obsessão por provérbios tradicionais, que nunca consigo terminar com nexo, por mais que eles pairem na minha cabeça certinhos, como fantasmas.
Para além disto, já treinei ao espelho da minha casa-de-banho inúmeras entrevistas que dei à Oprah sobre um livro que ainda não escrevi, e sou exímia na arte do dolce far niente, embora mãe de uma família numerosa trabalhosa e filha de uma mulher com uma energia e uma genica que contagiam meio mundo, menos a mim.

Há pessoas com vidas vertiginosamente normais. Ou que fazem gala em mostrar uma aparente normalidade, como se tudo o que fugisse da norma as desarrumasse por dentro.
Respeito e juro que compreendo.
Mas prefiro as cores berrantes da minha vida anormal. Os altos e baixos das minhas escolhas fora da caixa, que me trouxeram à vida que tenho hoje e à mulher que já não escondo ser.
Assim sou eu e estas criaturas estranhas que me rodeiam todos os dias. Uma amálgama de gente anormal, que me adoça a vida e que me dá o chão que preciso: seguro e genuíno.


10 comentários:

Anónimo disse...

olá

penso que tudo isso que escreveu sobre a sua vida seja normal, depende do ponto de vista de cada pessoa, para mim que sigo o seu blog, acho que leva uma vida normal como milhares de pessoas por esse mundo,à procura da sua FELICIDADE.
Bjs e que continue assim

pés no sofá disse...

Muito bom. Inspirador como sempre. Como diz o gato no filme "Alice no País das Maravilhas" e que o meu filho tanto adora dizer: "somos todos malucos aqui"

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Adoro! É a tua anormalidade que te destingue ;)

Maria Carloto disse...

Adorei... Talvez o texto que escreveu que mais gostei de ler até hoje! :)

Anónimo disse...

A fronteira entre o normal e o anormal é muito ténue e depende de cada um. Um que para um pode ser anormal para mim é normal e o contrário também. O que interessa é ser feliz, vivendo normal ou anormalmente.

Mãe Sabichona disse...

Os outros são (quase) sempre normais aos nossos olhos. E quanto menos os conhecemos, mais normais nos parecem. Já ao contrário, achamos que nós somos sempre os diferentes.

Margarida S. disse...

Eu falo sozinha. Se pudesse, falava sozinha o dia inteiro.

Cátia Lopes disse...

Adorei o texto! Um dos melhores que li neste blog.
A anormalidade é sempre sinónimo de felicidade. Obrigado pela partilha.

http://sacoladadiferenca.blogspot.co.uk

Anónimo disse...

"Esbarrei" hoje com o teu blogue (desculpa o "à vontadinha" do "teu"!) e adorei. Já agora a "culpa" é ...às 9 no meu blogue!!!
Revejo-me em tanta coisa, principalmente no primeiro post que li...Mudança!
"principalmente" por ter uma história em muita coisa parecida (só que com mais um filho :))
"principalmente" por também não ser normal
"principalmente" por ficar a esbardalhar-me a rir das minhas próprias "anormalidades" e quedas que vou dando, por este caminhar...
Obrigada

Pintarolada disse...

Incrível :) revejo-me completamente!