quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A mãe que sei ser

Com grande pena minha, não faço parte do grupo de mulheres que mudou com a maternidade.
Não vi a luz depois de ter sido mãe, nem passei a achar o mundo mais doce nem mais tolerante. Ao contrário, o meu mundo interior desabou de privação de sono, de mimo, de imaturidade, de cansaço extremo.
Não leio a ementa semanal do refeitório da escola, não encho a secretária de prendas do Dia da Mãe, não guardo religiosamente cada desenho, nem cada lembrança, não faço dos meus filhos o centro das minhas conversas e não me sinto em explosão de amor todos os dias, já que vou explodindo de nervos amiúde, sempre que me desobedecem, que fingem que não me ouvem, que me irritam.
Os meus filhos serão talvez {mães que mudaram com a maternidade, pulem esta parte!}, as pessoas que mais me irritam nesta vida, simplesmente porque têm canal directo e privilegiado com cada célula do meu ser, proeza que me atordoa de amor, tanto quanto me cega de nervos. Depende da circunstância, lá está.
Apesar disto e talvez por isto mesmo, surpreendo-me a mim própria, todos os dias, com a forma como o Amor se multiplica por cada um deles. Um Amor que dói e que cura ao mesmo tempo. Um Amor redentor, que todos os dias sara a ferida que ainda tenho aberta, de quando ainda não sabia se gostava de ser mãe. Um tempo em que ainda só tinha aprendido a ser filha, e que tudo o resto parecia um fardo impossível de carregar. 
Hoje, de vida mudada e comigo mudada, olho para trás e já mal me reconheço nesta ambivalência esvaziada de sentido.
E onde via um peso, descubro leveza.
E onde estava uma obrigação, percebo um milagre.
E já nenhum me escapa. Vos garanto.


8 comentários:

Ligia Silva disse...

Amei :)

Maggie F. disse...

és uma mãe comum, acredita. As outras, as mães excepcionais é que não são.

Muitos beijinhos

Maggie

filipa vasconcelos disse...

Acho que ainda não tinha visto ninguém a admitir que não lê a ementa da escola... olha, eu também não leio e se alguém tem dor de barriga e pergunto o que foi o almoço ninguém se lembra (momento catártico raro, este).

Papoila disse...

Ainda hoje pensei que também não leio a ementa na escola...só sei o que comeram quando se queixam que o jantar é igual ao almoço...shame on me he he he Texto tão "despido" e tão bonito

S disse...

Muito bonito :-)
Beijinhos
SBentes

moijeeu disse...

Parabéns por este texto, por esta frontalidade e por esta crueza num assunto tão delicado. Esta moda da 'descoberta da maternidade' (coisa que é capaz de existir há....hum....ok, sempre existiu) deixa-me com os nervos em franja. Então mas só agora é que se descobriu que afinal um filho é a coisa mais importante na vida de uma mãe? Só agora é que se descobriu que tudo muda com o nascimento de um filho?
Parabéns por ser uma mulher que é uma ótima mãe e não uma mãe que não sabe ser mulher.

mãe disse...

Hum... a ementa da escola está publicada onde mesmo ??
:P

Anónimo disse...

O meu marido descobriu este blog, quando enviou o link, escreveu o seguinte "Acho que tu andas neste texto"... A realidade dos sentimentos que temos pelos nossos filhos está muito bem espelhada neste texto. Obrigado por dizer que não somos as únicas ...