domingo, 10 de agosto de 2014

Dilemas [ou nem tanto]

Às vezes, em momentos de fraqueza, peço-lhe um filho.
Não quero saber dos três quartos que a nossa casa tem, nem dos três filhos que eu já tenho.
Esqueço-me dos nossos dois carros exíguos {um Smart e um já estafado Mitsubishi Colt} e apago da memória as contas que fazemos ao final de cada mês e os matemáticos rigorosos em que nos tornamos sempre que vamos ao supermercado, ou sempre que decidimos fazer um programa a cinco.
Também faço por me esquecer do cansaço que é ter três crianças em casa e um gato, numa ginástica familiar tantas vezes esgotante.
Nestes momentos de devaneio, lembro-me somente que já fiz quarenta anos e que me sinto acabada de entrar num túnel do tempo acelerado. Uma montanha russa desgovernada que não trava nem volta para trás. E talvez por isso, passo a monitorizar todas as minhas acções ao milímetro, para me certificar, com um rigor suíço, de que aquelas que têm prazo de validade são efectivamente concretizadas, ou postas de lado, mortas e enterradas. Guardadas no baú das fantasias românticas não cumpridas, mas bem resolvidas.
Quando fraquejo e lhe peço um filho, esqueço o gozo que me dá estarmos completamente sozinhos, imersos em coisas nossas, nem tanto por puro romantismo, mas porque gostamos mesmo da companhia um do outro. Os silêncios não fazem barulho, as conversas vão do mais profundo ao mais estupidificante {às vezes, num cagagésimo de segundo}, e gostamos de fazer programas em conjunto. Mais que não seja, gostamos imenso de não fazer nada, exercício que nos é caro a ambos, e que ambos fazemos com mestria.
Ora ter um filho comum {a quarta criança cá de casa} iria complicar um sistema que funciona. Seria uma poeira fina numa engrenagem oleada e uma mexida desnecessária numa equipa já de si vencedora.
E ainda assim, às vezes fraquejo, que a ideia é perigosamente doce. Uma espécie de vertigem.
Mas o tempo vai passando com sabedoria, e o relógio interno continua a fazer tique-taque, mas sem nenhum barulho. 
Instalo-me, ainda mais refastelada, neste conforto e nesta rotina oleada, e esqueço a ideia, numa serenidade a que não estou habituada, mas que francamente me acalma.
E as certezas de que preciso instalam-se devagarinho. E fecham-se num baú. Bem resolvidas.





7 comentários:

Mãe Sabichona disse...

Acho que quem segue o blogue, sabe que era disto que falava ;)

Papoila disse...

Como entendo, eu a entrar nos 40 e o sonho dos 3 filhos a ficar em 2.2 Numa máquina finalmente oleada e a extrema necessidade de tempo a 4 e bastante a 2. O terceiro filho seria tudo o que falou mas a vertigem não deixa de ser doce e o tic tac de me lembrar que terá que ser um desejo resolvido e encerrado no baú pelo melhor equilíbrio que estes 2 conseguem para estes 4.

Anónimo disse...

Entendo-te tão bem...
Também eu fiz 40 anos e, só tendo um filho do meu primeiro casamento, penso tanto nisso. Logo eu, que sempre desejei ter 2 filhos. Tentei ter quando tinha 37 anos e descobrimos que o meu marido não pode ter mais filhos (já tem 2 de um primeiro casamento). E se na altura arrumei esse assunto na minha cabeça e fiz o luto da situação (achava eu), dou por mim, aos 40, a voltar a pensar no assunto, porque agora ainda podia ter mais um e em breve não vou poder mesmo NUNCA mais ter mais filhos. E sempre que me zango com o meu marido penso que me "roubou" este bocado de vida, aquele que me iria permitir ter mais um filho. Pode parecer horrível mas até já me passou pela cabeça engravidar de outro homem e dizer-lhe que o filho era dele.... Mas depois, sabe tão bem ficarmos sem crianças e termos todo o tempo só para nós....

Jardim de Chuva Prateada disse...

Mais uma vez, eu digo que te admiro Marta. :)

Paula Ferrinho disse...

Percebo-te bem MArta e compreendo esse "duelo" entre o racional e o emocional. Sei que o racional vai imperando, mas acredito que seja "doce, essa vertigem"... Talvez o racional vá imperando sim, mas atrevo-me a dizer-te que essa vertigem vai assaltar-te de vez em quando, não será? Ou não te conheça já um bocadinho...
Um beijinho!!

Anónimo disse...

Olá
E o seu marido quer um filho? Ele não tem pois não?
Acho que deviam confiar e entregar esse assunto ao destino. Como se costuma dizer: "Seja o que Deus quiser". O fruto de uma união de amor é perfeito.
Agora sabe que ainda poderá pelo menos tentar, daqui a uns anos isso já não será possível.

Beijinhos
Sandra

Anónimo disse...

ahhh...Sou uma brasileira, que descobri seu blog, por acaso tem um mês!...
Leio cada linha com muito prazer.
Cada linha tem relação comigo e minha vida..
ÉS LINDA!

Mas a este post, não resisti a comentar..

Um sorriso a mais nesta casa iluminara ainda mais toda e qualquer situação...e vertigem..
beijo.
Como disse alguém em outro comentário...
Deixe a cargo do destino...

Admiração e forte abraço
Sandra - São Paulo - Brasil