sexta-feira, 25 de julho de 2014

O insólito da vida dos outros e da nossa

Nem só de episódios previsíveis e politicamente correctos se fizeram estas férias.
Como a tarde em que decidimos ir explorar as praias rochosas e paradisíacas para lá do Caniço, e em que nos confrontámos com a visão {inicialmente onírica} de um indivíduo com cara de António Banderas e corpo de Conan - o Bárbaro, numa espécie de montagem manhosa, a ser fotografado, semi-nu, por senhora sexagenária munida do seu samsung galaxy. A baba quase lhe escorria da cara {a ela}, enquanto ele, de músculos oleados como um frango prestes a entrar no espeto, treinava poses encenadas por entre as rochas, alçava a perna, erguia o braço acima da cabeça e semi-cerrava os olhos, a lembrar os  preliminares de um qualquer filme de qualidade duvidosa. Do outro lado do cenário, numa espécie de lagoa azul turquesa formada pelo mar encarcerado nas rochas, estava uma família com duas crianças pequenas na apanha de caranguejos e várias outras {como nós}, a passear por aquele lugar, que parecia um destino caribenho. Lembro-me de, a dada altura olhar para trás, e dar de caras com o senhor Conan masturbando-se nas rochas, e olhando-nos a todos com o desplante e a loucura de quem se perdeu da vida, enquanto a "fotógrafa de serviço" continuava, impávida e serena, fotografando e filmando a sua musa.
Não sou santa do pau oco, nem acredito  num mundo cor-de-rosa, mas a cena profundamente desencantada e triste persegue-me até hoje.

E como esta manhã, na praia, em que inadvertidamente nos sentámos perto da filha de uma conhecida e loira socialite portuguesa, rodeada de seus dois filhos pequenos e de uma baysitter brasileira. Seriamente investida no trabalho para o bronze e na recuperação de algum sono perdido, a moça ia deixando os cuidados dos miúdos à responsabilidade da dita senhora, à excepção de quando se aproximaram a repórter e dois fotógrafos de uma revista cor-de-rosa, que combinaram umas fotos idílicas no local, ao género paparazzi. A partir daí {e já com as câmaras a uma distância de segurança}, foi vê-la imbuída na função de mamã-modelo, desfazendo-se em castelos de areia e idas sucessivas à beira-mar, abraços e beijos aos miúdos espremidos a destempo, e poses mais ou menos encenadas, a querer mostrar uma naturalidade que aprecio nas revistas que também compro, mas que perde a graça quando lhe percebo o contexto contra-natura. Afinal, ver o antes e o depois, às vezes, é lixado.
E porque tenho esta mania obsessiva de com a observação dos outros, mergulhar em mim própria, pergunto-me quantos papéis-modelo não vestirei eu também? Quantas hipocrisias, quantas mentiras brancas?
Pois.








1 comentário:

Nina Nininha disse...

Em relação à primeira parte … bem não há palavras para descrever (e classificar) tal situação. Em relação à segunda. Infelizmente é cada vez mais comum. Na última vez que fui ao cabeleireiro assisti a uma conversa deplorável. Uma mãe daquelas super sabichonas na matéria de “como educar filhos génios e filhas prendadas” a dar lições de moral a outra mãe. O que ali ninguém sabia é que a “mãe sabichona” raramente faz um quarto daquilo que estava a pregar. Passar tempo de qualidade com os filhos é coisa que ela desconhece. Mas “parecer” está mais na moda do que “ser”! É pena …

Nina
momentosemcapsulas.blogspot.pt/