terça-feira, 10 de maio de 2016

Casamentos falhados, lares desfeitos, famílias destruídas [vamos esquecer estas expressões?]

Foto: Pau Storch


Embora a decisão tenha sido minha, separar-me do pai dos meus filhos trouxe-me muitas angústias, porque não há decisões destas que se tomem de ânimo leve. Tive muito medo do desconhecido, de não conseguir dar conta do recado com os miúdos e com as tarefas mais básicas, de não me orientar financeiramente, de perder o pé. Acho que deve ser normal.
Numa fase posterior, preocupou-me a gestão dos filhos numa família que acabava e que deu, depois, origem a outra. Foi a entrada de um padrasto na vida deles, a saída de alguns "amigos" e a chegada de outros. E foi o distanciamento de uma família alargada que também era minha e com quem tive que reposicionar e redimensionar afectos. Foi um mundo novo, com tudo o que isso tem de assustador e de desafiante.
Hoje, passados vários anos e com a lucidez que só a distância permite, recuso-me dizer que o meu primeiro casamento falhou. As palavras têm um peso de que temos que aprender a tomar consciência, e não quero ver essa fase da vida reduzida a um "falhanço", a um mero acidente de percurso, nem a um erro. Afinal, foi a fase em que fui mãe pela primeira vez e em que repeti a experiência mais duas vezes, a que me estreei numa vida em comum, e aquela em que me descobri como mulher de alguém. 
Prefiro dizer que o meu primeiro casamento acabou, e lembrar-me que nem tudo o que acaba tem que ser necessariamente uma falha.
Foi também graças a este caminho que tenho trilhado, e do qual faz parte esta história, que tenho aprendido a dar valor às pessoas maravilhosas com quem me vou cruzando e a todas as experiências por que vou passando, e foi claramente por causa dele que descobri a minha capacidade para tomar decisões, mesmo quando não são populares. Essa, aliás, talvez tenha sido a minha maior descoberta, já que sou por natureza uma mulher que evita conflitos, mesmo quando isso implica anular-me um bocadinho.
Nada disto quer dizer que defenda a separação e o divórcio e que ache que esse é, inevitavelmente, o caminho para um qualquer crescimento pessoal. Isso seria o mesmo que defender que o cancro ou um outro trágico acontecimento de vida fosse essencial para buscarmos a nossa essência, assumpção louca e totalmente descabida. Acredito, sim, que há dores de crescimento que se manifestam de várias formas na nossa vida e que podem contribuir {assim estejamos despertos para o que podemos vir a aprender com elas}, para nos tornarmos mais próximos do que realmente somos e do que viemos cá fazer. E nada disso acontece se, ao longo do tempo, continuarmos a olhar para essas experiências dolorosas apenas com os "óculos da desgraça". Insistir em olhar para uma separação como um "casamento falhado", um "lar que se desfez" ou uma "família destruída", impede-nos de andar para a frente e, tenho a certeza, atrasa a capacidade que os nossos filhos têm de regeneração. Isto porque acredito piamente que é a forma como nós, "adultos da jogada", integramos e passamos pelo processo, que irá determinar em grande medida, a maneira como eles farão o seu próprio percurso.
Ver um casamento terminado dói, e requer que passemos por muitas etapas: a mágoa, a raiva e a dor serão algumas delas. Mas acredito que cristalizar nesse ponto pode ser perigoso, porque arriscamo-nos a deixar passar a felicidade, mesmo debaixo das nossas barbas.

7 comentários:

patricia neto disse...

Estou a adorar o que escreves,a forma como me transmites esse processo que para mim foi e continua a ser a separação.
Obrigado Marta.

Marta Antunes disse...

Obrigada!

Paula disse...

Prefiro ver-me filha de um casamento terminado do que de um casamento falhado!

Estou contigo Marta!

Paula

Vida de Mulher aos 40

Miss Audrey disse...

É tão isto...

Dúvidas e Certezas disse...

Acho que há muitas pessoas atormentadas com decisões idênticas; esta é uma forma muito assertiva e compassiva para olhar para os difíceis caminhos traçados. Que seja partilhado!!

Anónimo disse...

Obrigada pelo post! brigada pela partilha.
A Marta não imagina a dimensão do contributo para quem a lê , como eu.
Também eu optei pela separação e a frase " família desfeita" tem andado comigo sem me deixar "respirar".

Que a Marta continue a partilhar, faz toda a diferença!

Anónimo disse...

Muito interessante! Adorei o texto e achei sua visão de término de um casamento, bastante madura e sensível.