sábado, 8 de setembro de 2012

Famílias felizes precisam-se!

Ontem ao final da tarde, tivemos mais uma daquelas notícias que parecem marretadas na cabeça nos que ainda se mantêm à tona, e estocadas finais nos que já estão abaixo da linha de água.
E a par e passo, a linha que separa uns e outros vai-se desvanecendo, porque olhamos à volta e qualquer um pode afundar.
É fácil (fácil demais) deixar de poder pagar as contas, acumular dívidas, não poder cumprir compromissos anteriormente assumidos, mudar drasticamente a vida.
Não sou uma mulher pessimista por natureza, e tenho sempre os olhos postos nas coisas boas que uma má {ou aparentemente má }situação pode trazer.
Gosto de pensar que esta crise pode conter o consumismo desenfreado, a inversão de prioridades, a cegueira desta sociedade na qual me incluo, pelo "ter", mais do que pelo "ser".
Gosto de pensar que esta é uma oportunidade histórica {mais uma, a ver se é desta que a aproveitamos!} para rever valores, repensar a educação que damos aos nossos filhos, recentrar estilos de vida, fortalecer afectos.
Isto tudo é o que eu gosto de pensar, porque sou optimista e porque me recuso a educar três crianças, azeda com a vida e angustiada com o futuro. Porque ninguém educa para a felicidade na tristeza e na desesperança.
Mas vivo neste mundo e neste País, caramba! E a verdade é que sou optimista, mas não sou parva.
E a cada dia que passa, vejo o meu futuro e o futuro dos meus filhos cada vez mais comprometido. Comprometido no que é essencial. No garante das necessidades básicas.
Todos os dias, no meu trabalho, ouço pessoas que anteriormente organizadas, já não têm o que comer e que recorrem ao Banco Alimentar e às Cantinas Sociais. Pessoas que já não têm água, nem luz, nem gás. Pessoas que não têm maneira de comprar os livros escolares das suas crianças, pessoas doentes que não têm forma de comprar os seus medicamentos. Pessoas que definham devagarinho, porque mais do que a constatação da pobreza a instalar-se insidiosamente nas suas vidas, lidam diariamente com a frustração. Com a incapacidade de dar a volta. Com a impotência perante a avalanche de problemas que lhes chegam, como peças de dominó.
Sou uma mulher optimista e gosto de pensar que esta crise pode servir para mudar mentalidades. Mas ninguém altera prioridades quando começa a faltar o essencial: comida na mesa, água quente, habitação, agasalhos, futuro para os filhos.
Olho para a minha mãe: uma professora no topo da carreira reformada,  e vejo-a com saúde e com margem de manobra para a sua vida do dia-a-dia. Felizmente.
Dou um espreitadela no meu próprio futuro e interrogo-me. Interrogo-me muito, porque não tenho bem a certeza de que o que construo neste exacto momento, vá poder fazer a diferença daqui a 20 ou a 30 anos.
Há, contudo, uma batalha que irei continuar a travar e que está ao meu alcance todos os dias: manter a cabeça saudável.
Porque o desespero dos pais {ou dos adultos de referência das crianças}, desmorona qualquer família.
E porque quero a minha família de cabeça bem erguida.
Pronta e estruturada para o dia em que isto tudo mudar.
Porque vai mudar, ou nada faz sentido.
Assim seja.
 
MM
 
Este post é um "momento Limetree"

4 comentários:

Teresa disse...

Medo e Revolta! Cortam no essencial???? Veremos no futuro,não vejo as mordomias acabarem!! É só para alguns!!

Socorro, tirem-me deste filme!!! disse...

Prima, como te entendo e me revejo em tantas coisas que aqui escreves. Eu ando numa avalanche de emoções, problemas, soluções... também concordo contigo e apregoo que esta crise vai servir para muita gente repensar ideais de vida e maneiras de estar na vida. Mas quando vou ao supermercado vejo as compras nos carrinhos alheios cada vez mais contidas e de marcas brancas. à força estamos a aprender a dar valor ao que temos e a não comprar coisas desenfreadamente como até aqui. Custa-me mesmo muito dizer à D. Pimpolhinha as verdades da vida, que não posso comprar aquilo ou aqueloutro porque é caro e porque ela já tem e seria um desperdicio comprar outro. Mas ela aos poucos vão percebendo, aceitando, que remédio, e ela própria vai deixando de pedinchar, mas custa-me porque pedinchar das crianças faz parte da vida e do crescer e aprender... Também à minha volta já vi pelo menos uma família totalmente destruída pelas dividas, pela vontade de comer mais do que era necessário, sei lá... hoje embora tenham começado do zero, penso que são felizes embora tenham de batalhar mesmo muito todos os dias...enfim, como se diz, vivendo e aprendendo e eu ando a tentar aprender e a perdoar...

Dolce Far Niente disse...

Prima, um grande beijinho...andamos na mesma "batalha"...

Beijocas para todos

Dolce Far Niente disse...

Teresa, sou solidária com essa angústia...e esforço-me todos os dias para não ser "engolida" pela revolta. Um grande beijinho