segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Cair na real



Tivemos de fugir de madrugada e deixar tudo para trás. A casa, as recordações, as roupas, tudo o que não podia vir mais agarrado à nossa pele. Enfiámo-nos no carro à pressa e em pânico, os putos lá atrás encafuados e sem fazer perguntas (nunca fazem sempre que percebem que é assunto sério!), o bebé a dormir. O meu homem pôs prego a fundo e saímos dali depressa, para um destino assustador e desconhecido, mas isso seria a preocupação seguinte. Por agora, precisávamos fazer o caminho em segurança e aprender a dominar a mente para dosear as preocupações. Sabia que se não fôssemos capazes disto, enlouqueceríamos em pouco tempo.
Dou por nós a atravessar montes, vales, montanhas e toda a espécie de terrenos difíceis e acordo deste pesadelo quando ele se torna tão insuportável que o meu cérebro interrompe tudo: o exacto momento em que somos forçados a meter o carro num lago gigante, junto a um desfiladeiro, e em que olho para trás e vejo o meu bebé a sumir-se debaixo de água, sem que lhe possa chegar.

Já de olhos bem abertos, vejo que estou no sossego do Alentejo, na cama com o meu marido e com os filhos perto, aconchegados e seguros. A madrugada silenciosa só é interrompida pelo cantar de dois galos, um mais longe e outro logo ali, e nos quartos ao lado, dorme o resto da família; um silêncio doce, sem sobressaltos.
Tenho passado o dia inteiro a pensar neste pesadelo. E em contra-ponto, nesta paz e nesta segurança em que os nossos filhos ainda dormem. E nos milhares de casais que ao contrário de mim e do meu homem, deixaram filhos para trás, viram-nos morrer pelo caminho, fizeram-nos em campos de refugiados ou trouxeram-nos com eles, à mercê do medo, da guerra, de lagos gigantes, de mares infinitos, de caminhos tortuosos. Alguns deles com quem trabalho todos os dias, e que pelo simples facto de existirem na minha vida, me põem no lugar sempre que preciso cair na real.

2 comentários:

Coquinhas disse...

Esta noite também tive um pesadelo, acordei a chorar desalmadamente :(

Maria João disse...

Acho que os pesadelos servem para nos chamar à atenção. Para sentirmos na pele, aquilo que esperamos nunca vir a sentir, mas que outros, como diz e bem, sentiram, um dia. Para estarmos na pele deles, se bem que nunca, nunca conseguiremos sentir o que eles sentiram, mesmo que a situação seja real.
Alguns pesadelos, claro. Porque outros.... bah! não são nada...