quinta-feira, 28 de julho de 2016

Uma confissão...



Não tenho vontade de chorar, mas já tive. Pouco antes do Vicente nascer e logo a seguir, bateu-me uma nostalgia tremenda. Uma vontade brutal de voltar atrás para reprogramar um futuro diferente, sem espaço para esquecimento de pílula nenhuma.
Nesses momentos, achei que ter novamente a vida em suspenso seria penoso demais, quase intolerável. Um enorme sacrifício ver o mundo correr lá fora, os sonhos a voarem pela janela e a minha impossibilidade de lhes chegar. Um filme que já vi há uns anos e que não me apetecia repetir. 
Como faria sem tempo para mim outra vez? E com as saudades de sair de casa sem horas, nem destino? Queria voltar a ser dona do meu tempo e do meu sono seguido, do meu corpo sem mazelas recentes, da autonomia que conquistei a pulso. Regressava o medo de me perder nesta maternidade nova e tardia e de deixar para trás tudo o que agora me definia.

Passados 2 meses de Vicente já me apaziguei com esta nova realidade, e de cada vez que olho o meu bebé e o imenso amor que os irmãos lhe têm, percebo como foi acertada a decisão da vida. Nem sequer me culpo pelos momentos de dúvida e de alguma tristeza, porque isto dá tristeza, às vezes. Não faz mal dizer, toda a gente sabe, mas pouca gente diz.
Agora, passou. As hormonas estão a retomar o seu lugar, as mamas carregadas de leite ligeiramente mais controladas, a barriga menos flácida. Olho-me e já me reconheço novamente. Por dentro e por fora. Começo a ter vontade de regressar aos meus projectos e de criar outros, de rever amigos, de viver a vida lá fora, mas com esta cá de dentro. Aos poucos, tudo retoma o seu rumo, sem espaço para nenhum arrependimento, porque o Amor cura tudo.
A vida sabe o que faz, mas precisamos de tempo para absorver. Para integrar. Acho que essa etapa está feita.

9 comentários:

Xica Maria disse...

Todas passamos pelo mesmo mas é como dizes, quase ninguém fala.
Ainda bem que estás bem contigo mesma.

Vou seguir*

Anónimo disse...

Marta,

Obrigada pela sinceridade com que transmites o que sentes.
Continua assim :*

Anónimo disse...

corajosa! não pelo que sente mas por o expressar. Respect!

Anónimo disse...

Os primeiros meses são sempre complicados.
Com o tempo tudo vai acalmando. A vida volta ao normal.
Para mim, o que faz toda a diferença é ter bastante apoio e ajudas.
Acho que a maternidade teria sido bem mais fácil, com alguém para limpar e arrumar a casa, fazer refeições e alguém para ficar com os bebés.

Beijinhos
Su

Maria Rita disse...

O Gui tem um ano, e às vezes ainda penso nisso e sinto alguma vergonha por ter esses pensamentos, afinal não sou a única.

Obrigada por isso.
beijinho

Sofiazinha disse...

Que lindo texto, Marta.

Um Xi coração apertado para ti.

Que inspiração. Uma mulher inspiração.

bj

Anónimo disse...

O AMOR CURA TUDO!
Palavras suas!Beijinho Marta!

Sandra disse...

Marta, os meus já têm 16 e 17 anos, agora estou no outro lado da medalha. Se nenhum almoça em casa já não faço almoço. E o silencio, ai o silencio outrora tão desejado, agora incomoda.

Anónimo disse...

Obrigada por este post.. Estou a passar uma situação parecida e revi-me tanto com o que escreveu. Eu descobri há pouco tempo que estou grávida de um 3o filho não planeado e ainda não desejado. E sinto-me péssimo por isso. Mas estou à espera do momento em que me vou apaixonar por este novo bebe. Foi bom ler as suas palavras. Senti-me menos sozinha! Bj