sexta-feira, 20 de maio de 2016

A desculpa do "desamor" não chega?

Foto: Pau Storch

No outro dia falava com uma amiga de como ainda é difícil isto, de explicar aos outros que é possível deixar simplesmente de amar alguém, e terminar um casamento por causa disso. Continua a ser mais fácil alegar "divergências irreconciliáveis" ou alguma forma de mau-trato, para justificar o desamor. A merda do desamor. Como se a partir de uma certa idade e depois de decisões sérias tomadas, deixasse de ser legítimo desamar, ou pelo menos deixasse de ser fundamento suficiente para tomar uma decisão mais radical.
Deixar de amar alguém fica, assim, renegado para segundo ou terceiro plano, uma espécie de "parente pobre" dos casamentos infelizes e uma cartada que não vale ser jogada, porque parece batota. À pergunta "porque foi que te quiseste separar?", não adianta dizer que foi porque deixámos de gostar o suficiente. Os filhos, a vida, e a "maturidade das pessoas casadas" não permitem arrufos desta natureza. Não gostar o suficiente não pode ser razão suficiente. Resultado: o preconceito a que tantas vezes se é votado por esta "resposta mal dada" pode levar a mentiras, essas sim, com repercussões graves, numa tentativa de construção de uma realidade fantasiosa que diaboliza o outro e a relação que se quis terminar, ao invés de se honrar o que de positivo se viveu em conjunto. Mas que acabou.
Já fui vítima do desamor na perspectiva de quem "desamou", e já fui desamada algumas vezes, pelo que conheço os dois lados da moeda e sei que em nenhum deles se é necessariamente bonzinho ou vilão. E também sei que, em ambos os casos, se sofre muito.
Aprendamos todos a valorizar os dois lados da barricada com dignidade, e a acreditar que não há justificações menos válidas. Há pessoas e as suas circunstâncias únicas, há estados de desamor que podem matar aos bocadinhos {ainda que haja outros que podem fazer renascer algo ainda melhor e maior}, há vidas que merecem ser renovadas e outras, ainda, que bastam ser regeneradas. Há uma panóplia de razões para acabar um casamento ou para reinventá-lo. E também há o desamor. Uma merda que não se explica, porque é difícil explicar ao outro o desencanto, mas que existe. E dourar a pílula pode ser a morte do artista.

14 comentários:

Lili disse...

...
...(...)"Porque é difícil explicar ao outro o desencanto" (...)
Obrigada por este post.
Ando há anos a [tentar] "explicar" isto a quem me faz essa pergunta.
Como se não fosse um argumento [por de mais] válido.
Um beijo.

Anónimo disse...

Obrigada por mais este testemunho tão importante!
Também eu vítima de crítica por deixar 1 casamento pelo motivo " desamor".
Por favor vai escrevendo sobre este tema e sobre o tema ...como ajustar os filhos a uma nova família.

Obrigada!


Anónimo disse...

Nada mais verdade!! Poderia ter sido eu a escrever essas palavras... Reitero o pedido do anónimo das 09:37, vá escrevendo sobre estes assuntos com a regularidade que lhe for possível, são de grande "utilidade pública" :) Obrigada e muitas felicidades

Anónimo disse...

Obrigada por este post. Muito corajosa.
Também eu tomei a iniciativa de terminar um casamento (longo) por me desencatado e ter deixado de amar o marido. E por causa disso, fui vitima de muita incompreensão, criticas e maledicência. Muito mau.
Continue por favor, a sua partilha é muito importante, fez-me saber que não estou só, não fui a unica, e não sou a unica que reconstroi a familia. Agora sou feliz, mas sou mais feliz também por causa deste blog e por causa da sua partilha. :)

Sofiazinha disse...

Bom dia Marta!

Mais uma vez AMEI o post e identifico-me tanto com ele.... :(

Também sou "vítima" desses preconceitos e doem muito. Até porque já me disseram a mim (amigos), coisas que eu nunca disse a ninguém em nenhuma circunstância.

A minha família, apesar de sermos próximos, também continua a ser preconceituosa e eu, na opinião deles, sou uma miúda com 15 anos, que toma decisões erradas, caprichosa, precipitada e irreflectida. Acham que este casamento vai acabar, tal como os outros acabaram.

Tenho 3 filhos. Excelentes relações parentais, e só mesmo parentais, com os pais deles. Mas isso ninguém vê, ninguém aplaude.

É o mundo que temos.

Mas eu? Eu sou feliz.

E na verdade, cada vez mais, infelizmente por um lado, é isso que importa. Eu e os meus somos felizes.

Beijinhos

Anónimo disse...

o título deste post deveria ser "O argumento do desamor" e não a desculpa!
É infelizmente um argumento que demasiada gente considera uma desculpa!
Junto-me ao clube!

Anónimo disse...

Eu acho que esse preconceito existe sobretudo quando quem decide terminar a relação é a mulher. Penso que ainda se confunde muito a maternidade com a escravidão, e ainda se acha que a mãe tem de fazer tudo para não incomodar os meninos. Mesmo que isso signifique que a mãe morra por dentro.
Acho que tenho de mudar as mentalidades é isso ainda leva algum tempo. É preciso que todos se habituem a que há famílias diferentes. É sobretudo precisamos todos de tomar consciência que, felizmente, há pessoas que não têm medo de pensar pela sua própria cabeça e escolher o que as faz feliz. Isso não é ser imaturo, isso é ser MUITO corajoso.

Bailarina disse...

Deixei um namoro de 4 anos, sem filhos, sem casamento, sem casa comprada, por desamor e poucos foram os que entenderam.Parece que não é razão e que têm que haver sempre uma razão de peso.
Parabéns por não se ter acomodado!

Anónimo disse...

Será que quando se admite o desamor.. ele fica sempre há porta ? como se pudesse voltar ? a qualquer momento ? come se consegue viver sem o "para sempre"?

Anónimo disse...

Fui (sou) vitima do desamor. Há seis anos ele saiu de casa e sim deixou um rasto de destruição. Ainda não consegui refazer a minha vida, embora lute para superar e ser feliz outra vez. Ainda não consegui superar essa dor. Não guardo mágoas nem lhe tenho rancor, pelo contrário, acho que foi o único homem que me amou mesmo incondicionalmente. Sei que ele também sofreu na altura, mas já refez a sua vida.
Eu continuo sózinha, com os filhos a lutar pelas coisas mais triviais, como pagar as contas, as compras, os impostos ...
Lutei muito por ele e pela nossa vida,em todos os anos (e foram muitos) que estive com ele.Foram anos dificeis e quando tudo parecia estar a melhorar...deixou de gostar de mim...doí muito e nem todas temos a sorte de encontar outra pessoa que nos ame e de quem nós possamos amar também.
Escrevo isto para que pensem também no outro. Naquele que é "desamado" ou até "descartado".Na sequência da separação tive uma grave depressão que ainda hoje preciste. E não pensem que eu me encosto a isto de ser a vitima, pelo contrário, mas há dias em que ler aqui estes comentários, as feridas abrem outra vez.
Cristina

Dolce Far Niente disse...

Cristina, quero aqui deixar-lhe um grande beijinho de respeito pelo que vive. Também já fui desamada e sei o que é.
Beijinhos e força.

Sofiazinha disse...

Eu também já estive dos dois lados. E sei o que é.

Mas aqui, especificamente neste caso, fala-se dos "outros" (amigos e família) que insistem em não entender o "desamor".

PP disse...

Força Sofia. Eu sou igual. Somos felizes à nossa maneira. Com paz.

Mafalda disse...

o motivo do fim do meu casamento, a razão que pesou na decisão que tomei: o desamor. Não há outra, foi mesmo esta. Obrigada por falares nisto. A merda do desamor.