terça-feira, 5 de abril de 2016

Ninguém disse que refazer uma família é fácil. Mas é possível!



Juvenália de Oliveira Fotografia
Ontem, sobre este post, falava com uma amiga do desafio que é atrevermo-nos a viver uma segunda vida e a trazermos para o dia-a-dia dos nossos filhos uma "nova pessoa". A experiência da entrada do Rui nas nossas vidas não foi difícil, mas a minha amiga alertava-me para o facto de nem sempre acontecer dessa forma. E fiquei a pensar que ela tem razão, porque há muitos factores que se intrometem: a idade das crianças, o papel do progenitor que inclui a "nova pessoa" e como o faz, a história que os miúdos já trazem consigo e as histórias dos adultos, e por aí adiante. Olhando para a minha própria história com o discernimento que só a distância permite, relembro que também sou filha de pais que se separaram e que refizeram as suas vidas, e que lido com uma família diferente há quase vinte anos e com tudo aquilo que de melhor e de pior ela me trouxe: uma multiplicação de afectos e de complicações. Acreditem que já quase fiz o pino para entreter pessoas que mal se falam, para mantê-las em salas diferentes, para sentá-las em cantos opostos da mesa. E já fiz o salto encarpado para gerir conversas que ninguém quer conversar, para desencontrar horários, para gerir conflitos numa família que amo e que é a minha, mas que não é fácil.
Ainda assim, continuo a acreditar firmemente que o sucesso das famílias que se recompõem reside em dois grandes factores: o tempo {é preciso deixá-lo passar para cicatrizar feridas e relativizar fantasmas}, e a segurança dos afectos {ter a certeza absoluta que somos amados pelos nossos filhos e que ninguém rouba nenhum lugar, quanto muito, acrescenta Amor}.
O tempo e a segurança dos afectos é crucial e, às vezes, uma merda para conseguir, também vos digo. O tempo é muitas vezes lento demais,  e quanto ao amor incondicional que os nossos filhos nos têm, isso daria para mais mil posts sobre o tema. As nossas fragilidades e culpabilidade vêm todas ao de cima, como o lixo num oceano: as vezes que chegámos tarde à festa da escola, as que gritámos, o tempo que passámos fora, o que não brincámos, a atenção que não lhes demos. De repente, é como se a relação com os nossos filhos se resumisse às nossas falhas, esquecendo-nos dos nossos momentos de glória, como quando lhes contámos aquela história três vezes seguidas, quando os abraçámos depois de uma queda, ou a vez em que lhes dissemos que serão sempre o amor das nossa vidas.
A minha amiga tem razão, nada disto é fácil. Refazer uma família leva tempo, dá trabalho, requer paciência e uma maturidade que, com franqueza, não temos a todo momento nem todos os dias. Olho-me ao espelho, com 41 anos e com o quarto filho a caminho, e revejo tantas vezes a miúda mimada e infantil que evita conflitos como o Diabo da cruz, que tem medo dos outros e que nem sempre tem coragem para dizer o que pensa. Fantasmas que me obrigaram a vários anos de terapia e que ainda hoje fazem das suas, com os desafios que a vida me vai impondo todos os dias.
Mas é possível refazer uma família, ainda que com uma condição: não cair na tentação de achar que, desta vez, vai ser tudo perfeito. Não vai. E ainda bem, porque é sinal que é uma família a sério.


13 comentários:

Teresa disse...

Palavras sábias, Marta!

Maria joão Branco disse...

😍

Joana Carvalho disse...

Simplesmente amei estas palavras....
Também eu sou filha de pais separados, estou separada do pai do meu filho e estou a começar a refazer a minha vida... pé ante pé...muuuuito devagarinho e carregadinha de medo...

(Bolas, já estou de lágrima no olho)

Beijo enorme para si e para a sua linda família,
Joana (do Clio azul :) )

Anónimo disse...

Muito verdadeiro, muito bem descrito. É memso assim. Parabéns pela coragem, pela frontalidade. E muito obrigada pela partilha.

Bela disse...

Olá Marta

Não a conheço, não me conheçe........mas todos os dias visito o seu blog e mais 2 ou 3.
Devo dizer que gosto do seu porque escreve muito bem (muitas vezes sabe-me a pouco), tem um sorriso e um olhar bonitos em que cada foto consegue transmitir a alegria de alguém que foi "beijada" por um principe encantado e "acordou". Parabéns pelo texto magnifico, parabéns por tentar ser feliz e fazer quem ama também feliz e parabéns por esse bebé lindo que tanto alento lhe dá. Um beijinho para si, para os seus filhotes e para quem mais quiser :)

Bailarina disse...

Maturidade, tempo e amor. Lindas palavras

Vera Moniz e Medeiros disse...

Tenho um enorme medo disso... tenho consciência que em algumas situações é o melhor para nós e para os nossos filhos, mas não deve ser fácil... Admiro muito quem consegue refazer novamente a sua vida e muda para melhor!
Força...

da cidade pro campo disse...

"(...)revejo tantas vezes a miúda mimada e infantil que evita conflitos como o Diabo da cruz, que tem medo dos outros e que nem sempre tem coragem para dizer o que pensa."
Quando de repente escreves por mim. Obrigada. Beijinho do tamanho da barriga.

Anónimo disse...


Olá Marta!
Gosto de ler o teu blogue. Hoje apeteceu-me comentar este post.
Sou divorciada e também nunca desisti de ser feliz outra vez. Mas acontece que cheguei à conclusão que quando há filhos de um e de outro pelo meio é muito, muito dificil a reconstrução de uma família. Sobretudo quando estamos a falar de filhos adolescentes e jovens adultos, que se estão "borrifando" para a namorada do pai. Perante as minhas tentativas de aproximação o que tenho é convites recusados e amuos como se eu estivesse a roubar o lugar de alguém. é horrivél para mim essa situação. Os meus filhos por seu lado, ao principio ainda iam colaborando, agora como vêm o que se passa com os filhos dele, também entraram na "mesma onda" ou seja já não se esforçam para agradar e há ainda a ter em conta os ciúmes de uns e outros. Agradar a estes seres tão importantes para nós não é fácil...assim estamos cada um na sua casa. Não sei se chamam a isto vidas refeitas...mas é o que é possivél. Cada caso é um caso e ainda bem que não generalizaste, mas quando os filhos já são assim crescidos como os nossos...o conceito de familía feliz torna-se ridiculo para eles e só nos magoa. Talvez com miúdos pequeninos fosse mais fácil...ou sou eu que não consigo.
Desculpa o desabafo.
Lua Azul

Sofiazinha disse...

Lua Azul:

desculpe comentar o seu post, mas permita-me uma "intromissão": na minha perspectiva, por mais que os filhos sejam tão importantes para nós e são-no mesmo, é indiscutível, não podemos permitir que isso interfira na nossa felicidade. Não só, mas também, porque um dia eles vão ter a vida "deles", e nós? Ficamos sós.....? Ou só nessa altura juntamos os trapinhos?

Compreendo a sua postura, porque é desgastantes essa situação, mas deixo-lhe a minha opinião.

Um beijinho. (Aqui também vamos numa família reconstituída....que vai andando pé ante pé....)

Sofiazinha disse...

Lua Azul:

desculpe comentar o seu post, mas permita-me uma "intromissão": na minha perspectiva, por mais que os filhos sejam tão importantes para nós e são-no mesmo, é indiscutível, não podemos permitir que isso interfira na nossa felicidade. Não só, mas também, porque um dia eles vão ter a vida "deles", e nós? Ficamos sós.....? Ou só nessa altura juntamos os trapinhos?

Compreendo a sua postura, porque é desgastantes essa situação, mas deixo-lhe a minha opinião.

Um beijinho. (Aqui também vamos numa família reconstituída....que vai andando pé ante pé....)

Anónimo disse...


Obrigada pelas suas palavras Sofiazinha !
Tem toda a razão e acho as suas palavras sábias, mas estou tão cansada de lutar contra a maré que desisti...pelo menos por uns tempos. Talvez depois, seja tarde demais, não sei.
Beijinho~
Lua Azul

Anónimo disse...

Este post veio no tempo certo.
Também eu estou a reconstruir família...e há dias tão difíceis! Que quase baixo os braços. Mas depois há dias melhores...e vamos andando pé ante pé.

Lua azul, força! Sei que é difícil mas o tempo ajuda, ou assim quero acreditar.