segunda-feira, 30 de junho de 2014

Sorte?

Há pessoas que dividem os outros entre os que têm sorte e os que não têm. Os que têm talento e os que não têm. Aqueles de quem todos gostam e os desgraçados a quem ninguém liga.
E quem divide o mundo desta forma assustadoramente simplista, normalmente sente-se do lado dos azarados, dos pouco dotados, dos desprezados pela vida. E já que nada lhes corre bem, talvez não valha a pena lutar pelo lado solar da vida, trabalhar pela excelência, nem empatizar com os outros, porque afinal, parece já estar tudo perdido desde a casa de partida, numa espécie de fado triste e irrevogável. Às vezes, confortavelmente miserabilista.
De modo que quando algumas pessoas me olham e me vêem feliz, dizem-me que tenho sorte. Que a vida me tem sorrido, que nasci com o rabo virado para a lua. Acham, no alto do seu pessimismo, que vagueio sempre em corrente lenta e doce, e que ter sorte é a chave desta vidinha simpática.
Nada disto é verdade, lamento informar. Ou muito pouco.
A minha vida tem tido muitas viagens doces e lentas, mas outras muito tumultuosas. Verdadeiros naufrágios dos quais tenho sempre conseguido vir à tona sem grandes mazelas. 
Sou optimista por natureza, é um facto. E isso ajuda. Como disse Katia Guerreiro numa entrevista a Anabela Mota Ribeiro, "(...) sempre fui uma água do rio que sabe que vai dar ao mar (...)". Sempre me decidi pelo final feliz, mesmo que o desfecho implicasse pequenos tsunamis, que há milagres que só vemos depois de buracos negros. E sei sempre que vai tudo correr bem, mesmo quando me sinto num sítio escuro qualquer. 
Não sei de onde me vem esta certeza. Se porque vi contos de fadas a mais, se porque fui amada demais, se porque sou ingénua demais. Não sei de onde vem. Mas acredito piamente que quem procura, encontra. Que quem se esforça, consegue. Quem quem ama, é amado.
Sou uma mulher de sorte, é verdade. Mas fiz-me a ela com todas as minhas forças.







7 comentários:

sarovsky disse...

Dizia alguém que às vezes neste país (e noutros, acredito) parece que é crime ser feliz! Como se fossemos obrigados todos a andar cabisbaixos e derrotados e, pior, como se quem é feliz tenha uma "estrelinha" que assim o garantiu. Do "alto" dos meus curtos 27 anos também sei que não é assim, que a alegria e a felicidade são um estado de espírito e uma forma de vida... Gostei tanto que vou partilhar! :) *

são branca disse...

é muito belo o que escreves e sentes e também eu gostaria de voltar a acreditar que quem procura, encontra, que quem se esforça, consegue e que quem ama, é amado. feliz ou infelizmente os muitos caminhos e vidas que tenho cruzado e que em mim se vão guardando foram-me mostrando que apesar da crença, do esforço, da procura ou do amor investidos, são demasiados os que a vida teima em nem lhes esboçar um mero sorriso. pássaros que já nasceram de asas cortadas. digo eu, que sinto nasci no lado certo do mundo. abraço-te forte.

Patrícia Teodoro disse...

Poderia ter sido escrito por mim...tantas vezes que digo isto. E o optimismo é coisa para nos fazer lutar para ser mais e mais felizes...beijo

Juvenália Dorotea disse...

Eu sou a mãe da Marta e embora ela não saiba donde lhe vem esta esperança quando tudo parece desesperança, eu sei! Há muitos, muitos anos, pela década de 60, vi um filme que se chamava Pollyanna, que tinha por base um clássico da literatura infanto-juvenil, com Hayley Mills que, com este desempenho comovente, ganhou um óscar especialmente criado para ela por ser muito jovem e Jane Wyman, também uma excelente atriz, igualmente vencedora de um óscar e candidata a mais alguns. Este filme impressionou-me muito, não só pelo extraordinário desempenho, mas porque me terá levado a desenvolver uma caraterística que já deveria ser intrínseca, mas de que não tinha muita consciência e que tenho procurado manter e passar aos que me rodeiam, como aliás o fazia Pollyanna. A ideia é descobrir alguma coisa de positivo e bom mesmo nas situações mais desagradáveis. Não sei se alguma vez falei à Marta do filme, mas de certeza que ao longo da nossa vida lhe fui passando essa mensagem pelo exemplo, que é o melhor modo de passarmos mensagens aos nossos filhos. Como diz a Marta nada foi fácil na vida dela e talvez ambas estejamos a passar, atualmente, os momentos mais calmos das nossas vidas, mas tentámos sempre o mais rapidamente possível, dar enfase ao lado positivo e agradável dos factos e acreditem que ajuda muito!

Raquel Caldevilla disse...

Somos ou não somos parecidas? :)

Catarina disse...

Felizmente revejo-me perfeitamente ns tuas palavras e fico tão feliz por isso. Costumam achar que tenho sorte, que a minha vida é só rosas, o que não está sequer perto de ser verdade. Mas não me importa. Dá tanto trabalho ser feliz como infeliz, e eu escolho a primeira opção :)

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Recorda-me uma frase que a minha avó me dizia quando era miúda, na altura achava que não fazia sentido, foi preciso alguma maturidade para a entender.
" A sorte dá muito trabalho..."
A minha avó também via sempre o lado bom de tudo, e nunca baixava os braços.