O grande dilema das mulheres nos dias de hoje, ainda tem que ver com a conciliação entre o trabalho e a família. A culpa persegue-nos há décadas. Antes, era esperado que fossemos as cuidadoras exclusivas; tudo o resto era um "plus" caprichoso ou demasiado modernista e, por isso mesmo, mal visto. Hoje, somámos ao nosso papel de cuidadoras, o direito a trabalhar fora de casa, e conquistámos o direito à liderança nas organizações, tudo boas notícias! Mas como é viver com uma conta de somar, sem subtrair nada? O dilema, na verdade, é este mesmo: queremos trabalhar e queremos ter o direito a ascender profissionalmente, mas não queremos perder o direito a estarmos presentes na nossa família, porque essa é a nossa matriz, a matriz do cuidar. Digo isto sem nenhum tipo de preconceito de género, até porque não sei se esse natureza cuidadora que caracteriza a maioria das mulheres (e que não se traduz, de todo, somente na maternidade, mas na relação com os ascendentes, com maridos ou companheiros, etc), tem que ver com o facto de sermos mulheres ou com o papel social que desempenhámos ao longo de séculos. Seja por uma ou por outra razão, esta matriz persegue-nos como uma benção e como uma maldição, um paradoxo que continua connosco como uma cicatriz.
A verdade é que queremos tudo: um trabalho bem sucedido e tempo para a família. E a dura realidade é que na maioria das vezes, esta soma não funciona de forma linear. Todos os dias vivemos a culpa de deixarmos para trás uma destas facetas e todos os dias nos penalizamos por isso; porque saímos do trabalho antes das seis da tarde, porque fomos buscar o miúdo à creche perto das sete, porque chegamos a casa estoiradas e sem paciência para nada, porque devíamos ler o relatório a, b e c e já não temos forças, porque, porque, porque. Queremos ser reconhecidas profissionalmente e, legitimamente, queremos continuar presentes para a família. E quando digo "presentes", não me refiro ao sufoco que é dar resposta a tudo a um ritmo constantemente tão alucinante, que nos faz taquicárdias. Estar presente para a família não é fazer sempre tudo à pressa: ir levar e buscar os miúdos à pressa, conversar à pressa, ouvir à pressa, ralhar à pressa, amar à pressa.
Pergunto-me, muitas vezes, se o direito que conquistámos a pulso para sermos trabalhadoras fora de casa e para ascendermos profissionalmente implica, inevitavelmente, perdermos o direito a vivermos a família sem pressa. Pergunto-me se querer ter uma carreira bem sucedida e tempo para a família é um binómio estapafúrdio. Pergunto-me isto todos os dias, e ainda não tenho uma resposta, mas dêem-me tempo; quero dar-vos boas notícias.
































