Os amigos e família chegada dizem-me muitas vezes que os meus três filhos tiveram muita sorte com o padrasto. E têm razão. Sobre essa sorte, aliás, já falei AQUI. De facto, ao longo dos anos tenho escrito muitos posts sobre como tem sido comovente assistir à entrega e compromisso diários do meu marido com filhos que não gerou, mas que também lhes pertencem no coração, e de como esse amor por eles tem contribuído para fazer crescer o nosso, já que um não existe sem o outro. São duas faces da mesma moeda.
Ser padrasto/madrasta - esse nome feio que os contos de fadas eternizaram tão injustamente, está na maioria dos casos {e felizmente}, muito longe do cenário assustador e castrador com que fomos bombardeados nas histórias de infância, e tudo o que sirva para desmistificar o seu papel ingrato, é serviço público para as nossas crianças. Ainda assim, amar e viver com o padrasto dos nossos filhos nem sempre é fácil, porque há muitas frentes para gerir desde o "momento zero", isto é, aquele exacto instante em que aquela "nova pessoa" começa a fazer parte da vida dos nossos filhos.
Da minha experiência e do que tenho vindo a reflectir sobre o assunto, acho que há 7 regras básicas que facilitam o processo:
1. A entrada de um(a) padrasto/madrasta
na família implica tempo, mas um tempo contado na proporção das crianças e
nunca dos adultos. As horas, minutos e segundos dos miúdos são diferentes dos
nossos e não adianta apressar nada, ou corremos o risco de estragar tudo;
2. Dependendo
da idade das crianças e do seu nível de maturidade, assim lhes deve ser
explicado quem é aquela “nova pessoa” e que significado tem para a mãe/pai. Na
minha opinião, dizer que se trata de um amigo(a), quando as crianças assistem a
manifestações que não temos com os nossos amigos, é enviesar o teor das
relações sociais e amorosas e mostrar-lhes que a mentira está autorizada.
3. O amor pelo progenitor que não
está a coabitar com as crianças nunca deve ser posto em causa, nem questionado
de nenhuma forma. É fundamental que as crianças percebam desde o início, que a
“nova pessoa” não vem substituir ninguém, nem ocupar o lugar de ninguém nos
seus corações. O pai/mãe sê-lo-ão para a eternidade, e a entrada daquela “nova
pessoa” nas suas vidas nunca porá esta verdade absoluta em causa;
4. É
proibido criticar o pai ou a mãe com quem a criança não está no momento.
Esta é outra verdade absoluta quando reconstituímos uma família, e é vital para
a felicidade dos filhos e para a saúde deste novo núcleo familiar;
5. A responsabilidade da educação
dos filhos é sempre do pai e da mãe. E as grandes decisões (relacionadas com a
escola, com as actividades extracurriculares, e outras que tenham que ver com
questões essenciais para o projecto de vida das crianças), deverão ser tomadas
pelos pais. Verdade absoluta. Ainda assim, a “nova pessoa” deve ter uma palavra
a dizer, a partir do momento em que integra aquele agregado familiar. Pode e
deve opinar e ser um apoio do pai ou da mãe (dependendo do caso), na tomada de
decisões. Deve, igualmente, participar activamente na educação das crianças,
porque não é invisível, nem é de ferro. Vive lá em casa, e deve ser mais um
elemento a contribuir para a sua formação pessoal. E muito importante, deve
estar em linha com o pai/mãe das crianças e deixar-lhe, sempre, a decisão
final;
6. Se for possível fomentar um
relacionamento saudável entre a “nova pessoa” e o pai/mãe das crianças, tanto
melhor. Os miúdos agradecem e os adultos suspiram de alívio pela paz instalada.
Há momentos de inevitável encontro (festas da escola, aniversários, …), e
manter um relacionamento afável, ajuda. Mas se isso não for possível, não vale
a pena dramatizar nem fazer disso um “cavalo de batalha”. As batalhas devem ser
estrategicamente escolhidas e, normalmente, quem passou por um divórcio já
travou umas quantas. O tempo pode resolver a questão. Ou então, bastam doses q.b.
de boa educação e sensatez em momentos-chave;
7. A comunicação entre o pai e a mãe
das crianças é sempre da responsabilidade dos adultos e nunca deve ser delegada
nos filhos. São os adultos que devem encontrar uma plataforma de entendimento,
sem nunca utilizar as crianças para recados e picardias que não lhes cabe a
eles gerir.
Nota: estas regras básicas são fruto da minha experiência enquanto filha de pais separados, de mulher divorciada do pai dos meus três filhos mais velhos e de muitas leituras que tenho feito sobre os temas do divórcio e das famílias recompostas. Não sou especialista na matéria, pelo que valem o que valem.
Se quiseres partilhar as tuas regras básicas {aquelas que funcionam na tua realidade}, envia mail para martamoncacha@gmail.com
Obrigada!