segunda-feira, 15 de outubro de 2018

"Infelizes e juntos para sempre, até que a morte nos separe?"


Não sou apologista do divórcio, mas defendo-o como um mal necessário sempre que estamos perante um "mau casamento".
E o que é um "mau casamento"?

É uma relação destrutiva para, pelo menos, uma das partes. 

É uma relação que traz tristeza e desesperança a, pelo menos, uma das partes. 

É uma relação que faz infeliz, pelo menos, uma das partes.

Se reparares, em nenhuma destas afirmações inseri os filhos, o dinheiro, nem a pressão social e familiar, porque perante um "mau casamento", nenhum dos factores acima deveria ser razão para evitar o divórcio. Bem sei que a realidade não é esta. Há mulheres e homens que não se divorciam por causa dos filhos. Há mulheres e homens que não se divorciam por razões financeiras. Há mulheres e homens que não se divorciam pela pressão da família e da sociedade. Pergunto-me, contudo, se as mulheres e homens que não se divorciam "apenas" por uma das razões acima, por algumas delas ou por todas, levam vidas felizes. E por vidas felizes, refiro-me a uma existência que lhes traga serenidade, segurança e sentido de propósito.
Também fiz questão de referir que basta uma das partes sentir tristeza, desesperança e infelicidade para estarmos perante um "mau casamento", porque tal como no tango, o casamento só se dança a dois, embora tantas vezes nos esqueçamos disso, porque queremos muito que resulte, porque entramos em negação, porque temos medo de sermos deixados ou de deixarmos alguém e fazermos sofrer, porque, porque, porque.
A verdade é que, por mais doloroso que seja para todos os envolvidos, levar a vida para a frente, fechar ciclos e recomeçar de novo implica, por vezes, passar pela experiência da separação ou do divórcio. E ainda que algum sofrimento seja inevitável, é preciso abalar crenças para que o processo decorra com o mínimo de efeitos secundários.

Partilho convosco aquelas que, no meu processo, precisei derrubar:

1. Os filhos serão, inevitavelmente, infelizes depois do divórcio dos pais;
2. O dinheiro será sempre um problema com o divórcio (por razões culturais, esta crença abala mais as mulheres);
3. Os pais que se divorciam ficarão com a relação parental, irremediavelmente, empobrecida.

Abalar crenças requer tempo, coragem e, é preciso dizer, ajuda, mas a boa notícia é que elas se abalam. Vamos começar a desconstruir algumas?

Crença 1. Os filhos serão, inevitavelmente, infelizes depois do divórcio dos pais.

A estabilidade emocional dos nossos filhos depende da nossa, por isso, tem atenção ao que lhes dizes, à forma como constróis a tua narrativa à volta do divórcio e às narrativas dos outros, a que as crianças ficam expostas. Elas ouvem e sentem tudo, ainda que possam parecer alheadas. E também fantasiam e criam fantasmas, quando a informação não lhes é passada em tempo útil e de forma adaptada à idade e à circunstância. Não subestimes a sensibilidade do teu filho para perceber que algo se passa. E certifica-te que, apesar de tudo, ele não sente que o chão lhe está a fugir debaixo dos pés. Tu e o pai continuam a ser pais, e é vossa responsabilidade transmitir segurança, estabilidade e Amor, independentemente das marés vivas em que possam estar a navegar. E lembra-te sempre: é pelas lentes dos adultos que as crianças olham o mundo que as rodeia. A tua visão será a deles, assume a responsabilidade.

Crença 2. O dinheiro será sempre um problema com o divórcio.

Perder a autonomia financeira com o divórcio é, infelizmente, uma realidade efectiva em muitos casos, mas arrisco-me a dizer que em muitas das situações, não falamos de perda de autonomia financeira, mas de perda de um determinado estilo de vida que o casamento proporcionava. Se for este o caso, é preciso reavaliar valores e prioridades, pesar prós e contras e decidir o que é realmente importante para ti.

Crença 3. Os pais que se divorciam ficarão com a relação parental, irremediavelmente, empobrecida.

Já escrevi sobre isto muitas vezes, mas repetirei sempre: A relação que os pais estabelecem com os filhos depois da separação ou do divórcio, é uma escolha, não é uma triste inevitabilidade. O divórcio não pode ser, em nenhuma circunstância (a não ser na negligência e no mau-trato), razão para alienar um dos progenitores ou para desaparecer da vida das crianças. O acesso a ambos os pais é um direito dos filhos, e se é verdade que a rotina é difícil,e que as exigências são muitas, também é verdade que essa será sempre uma responsabilidade e um dever dos adultos.Os filhos agradecem.


Não sou apologista do divórcio, mas sou defensora acérrima do direito que todos temos a ser felizes em qualquer fase da vida, mesmo que isso implique acertar o passo nalgum momento. Sermos infelizes até que a morte nos separe soa mal, mas é, infelizmente, o que acontece a muitos casais. É preciso pensar nisto com frontalidade, ainda que mortos de medo. Porque há vida para além do divórcio. 





domingo, 14 de outubro de 2018

Saudades mil.


Hoje sonhei contigo, puto. Sabias que o mano também? No meu sonho continuavas longe, mas estavas perto de mim, não sei explicar melhor.
Quando acordei, senti uma angústia fininha, acho que a isso se chama saudades. Muitas. Tantas, que nem sabia que existiam.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Mulheres de Prata, somos quase 5000!

Em Janeiro de 2017 decidi deixar de pintar o cabelo por muitas razões:
- Porque estava farta de o fazer de mês a mês;
- Porque via o cabelo frágil e danificado depois de 20 anos de químicos;
- Porque precisava poupar tempo e dinheiro;
- Porque estava a afastar-me de produtos tóxicos para o meu organismo (alimentação incluída);
- Por curiosidade: de que cor estaria o meu cabelo passadas duas décadas?
- Porque queria fazer uma mudança radical no meu visual;
- Porque sim.

A transição começou devagarinho, num processo que se avizinhava difícil, porque tinha o cabelo vermelho e o contraste iria ser enorme, não havia uma maneira milagrosa de disfarçar! Teria de lidar com as críticas, com os olhares de lado, com alguns confrontos e palavras ditas fora do lugar. Assim seria, mas não queria estar sozinha, precisava de ajuda e de motivação.
Foi assim que em Fevereiro de 2017, decidi que precisava encontrar outras mulheres que já tinham passado pelo processo, ou que estavam a passar por ele, e foi por isso que, num impulso, sentada à mesa da minha cozinha, criei o grupo de facebook Mulheres de Prata. Logo naquela noite (depois de o divulgar por aqui), percebi que companhia não me iria faltar! Tantas mulheres a pedirem para aderir, porque se identificavam de alguma maneira! É maravilhoso quando encontramos sincronicidade!
Também foi por essa altura que a minha mudança de visual começou de forma gradual e radical, ora lembra-te lá:


Desde aí até hoje, o grupo transformou-se numa comunidade de quase 5000 mulheres de prata, ou a caminho. Chegam de todos os cantos do País e de fora de Portugal: Brasil, Suíça, Austrália, EUA, França..., e têm sido um apoio incondicional neste meu caminho e eu (quero acreditar), no delas!
Hoje em dia, o grupo é muito mais do que um espaço sobre cabelos:
  • É um espaço seguro onde falamos sobre autoaceitação, acolhimento do nosso processo de amadurecimento, autenticidade, coragem para sermos quem queremos ser, independentemente das pressões e das normas sociais.
  • É um espaço de liberdade, porque independentemente da nossa escolha, respeitamos quem faz escolhas diferentes.

  • É um espaço de inspiração, porque as mulheres que ali chegam, impulsionam a vinda de muitas mais, num contágio bom.

  • É um espaço de solidariedade, porque apoiamo-nos umas às outras no processo de mudança, aceitando ritmos e acolhendo todos os retrocessos, todas as desistências, todas as dúvidas, todas as decisões.

  • É um espaço para desmistificar crenças, porque  para nós não há fracassos nem vitórias, há caminhos; não há certos nem errados, há verdades individuais; não há um conceito de beleza universal, há mulheres bem resolvidas com elas próprias, independentemente das escolhas que fazem.


Em 2019, será altura para nos conhecermos cara a cara, finalmente, para partilharmos caminhos, avanços e recuos, medos e ansiedades, dicas e testemunhos.
Alinhas? Queres fazer parte desta comunidade? Queres ajudar a divulgá-la?
Queremos atingir o nosso próximo objetivo: 10 000 mulheres de prata!

Para aderires ao grupo Mulheres de Prata, clica AQUI!
Para seguires o perfil no instagram, acede a @mulheres_de_prata.

Vamos a isto?

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Mediação, por favor!



Sou uma "sobrevivente" do divórcio dos meus pais, e do meu próprio com o pai dos meus três filhos mais velhos, de modo que conheço bem o papel de filha e o de mulher e mãe nessa circunstância.
Esta experiência num duplo papel, apesar de muito dura em qualquer um deles, trouxe-me a possibilidade de conhecer bem o medo de perder o meu pai quando o vi sair porta fora, e o medo de estar a causar aos meus filhos uma perda irreparável quando decidi separar-me: a de deixarem de viver com o pai como até ali.
Conheço demasiado bem o medo da antecipação destas perdas, mas aos 44 anos e depois de alguns quilómetros de vida, reconheço que a perda só acontece por escolha de alguém. São escolhas, não são inevitabilidades da vida. Quando um pai ou uma mãe decidem separar-se, é escolha de cada um deles o tipo de vínculo que irão estabelecer com os filhos naquela nova situação de vida. A separação dos pais não implica a separação dos filhos, ainda que esta constatação aparentemente óbvia não seja sempre tão linear. Imbuídos nos seus sofrimentos legítimos e em jogos de poder tantas vezes inconscientes, é tentador colocar os filhos no meio do conflito, arremessando culpas e construindo narrativas a preto e branco para histórias que foram feitas de muitas cores. E as crianças, inocentes neste palco de dor, vêem-se privadas do Amor a que têm direito: o da mãe e o do pai, independentemente de todos os contextos (retiro deste cenário, as situações de maus-tratos, naturalmente, que conheço bem, por força da minha profissão).
Eu sei; é duro reconhecermo-nos nisto. É duro assumirmos que se os nossos filhos não têm acesso a um dos progenitores, algum de nós não está a assumir o seu papel. Mas é verdade. A mãe ou o pai que vedam o contacto dos filhos ao outro, é tão grave como a mãe ou o pai que se anulam nesse papel e que abandonam. Excepção feita às situações de negligência e maus-tratos, todos os filhos têm direito aos pais, independentemente do marido e mulher que ambos foram, e separar estas águas pode ser penoso, mas é necessário.
Se vos disser que conheci o meu pai aos 20 anos, quando os meus pais se separaram, não vos minto. Até ali, era alguém que entrava e saía para trabalhar e que pouco ou nada sabia sobre mim. Foi só quando saiu de casa que decidiu investir. Sim, poderia ter sido tarde, mas ambos escolhemos não ser. Hoje, é o meu porto seguro, a par da minha mãe.
A separação ou o divórcio não podem implicar a perda dos filhos, e esse medo latente não pode ser inibidor de cumprirmos a nossa verdade. Nenhum pai e nenhuma mãe deve passar pela terror de perder os filhos quando decide separar-se, porque essa circunstância, mais do que a violação do direitos dos pais, é uma terrível violação do direito dos filhos. Há soluções legais e há soluções de bom-senso. Há Amor, mesmo quando os pais já não se amam mais.

Red Apple vai iniciar mais uma Pós-Graduação em Mediação de Conflitos com Especialização em Mediação Familiar, no dia 26 de Outubro. 
Inscreve-te AQUI!

sábado, 6 de outubro de 2018

Desafio #decidiestádecidido

ACTIVA, Março 2018
Por que raio fazemos mil planos para o início de cada ano, definimos objetivos e metas, repescamos sonhos, e esquecemo-nos de fechar os anos com chave de ouro, como merecem? É bem mais fácil recomeçarmos já embalados, do que andar a procrastinar com a nossa vida até 31 de Dezembro, certo? 
Já alguma vez pensaste nisto? Eu não, até saber do desafio #ospróximos90dias criado pela Lua Fonseca e pela Tati Sabadini.
Decidi adaptá-lo para uma "versão tuga", porque preciso de foco e da tua ajuda. E é por isso mesmo que partilho contigo os meus desafios diários atá ao final de 2018, na esperança de que te sintas inspirada e te juntes a mim nesta empreitada:

  • Fazer 15 minutos de exercício físico diário;
  • Berrar baixo com os meus filhos, inspirada no livro "Berra-me Baixo" da Magda Dias;
  • Eliminar os açúcares adicionados da minha alimentação;
  • Partilhar à refeição (normalmente ao jantar, quando estamos juntos em família), 2 situações do dia em que vi "o copo meio cheio", em vez do "copo meio vazio";
  • Reservar 1 hora de "me time" para cuidar de mim e para fazer o que me der na telha, inspirada na coach parental Sandra Belo, da Family Coaching.
Se me quiseres acompanhar neste desafio, basta seguires a página do instagram @martadolcefarniente, e partilhar fotos do teu desafio com o hashtag #decidiestádecidido.
Se vais falhar algum dia? Vais tu e vou eu, porque faz parte, porque somos humanas e porque há dias do inferno! Mas acredita que estabelecer objectivos concretos e ter com quem partilhar os resultados, faz toda a diferença!

Vamos a isto juntas?

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

O "copo meio cheio"

[Nova Zelândia 2018]

O Duarte vive desde há um mês com o pai, a (mãe)drasta e o filho dela. O Duarte vive com família, uma família que em vez de se ter dividido na vida dele, expandiu-se. 
Porque é que numa separação ou num divórcio, escolhemos fazer contas de dividir em vez de multiplicar? Porque é que achamos que os filhos de pais separados vão perder família, e não ganhar uma ainda maior?
Escolho ver o "copo meio cheio". E vocês?

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Quando os nossos filhos adoecem


Na semana passada o Vicente esteve doente, e esta tarde voltaram a ligar da creche, porque estava com febre e vómitos. A minha primeira reacção em "piloto automático", foi ligar à minha mãe e pedir-lhe para o ir buscar, porque foi esse o meu padrão dos últimos meses. O meu trabalho não podia esperar, não porque alguém mo impusesse, mas porque eu me impunha a mim própria.
Depois de já ter ligado à minha mãe, parei por uns segundos e perguntei-me por que raio não ia para casa ter com o meu bebé. Por que raio não assumia eu a responsabilidade de estar presente e a benção de ser o seu colo. E fui, sem culpa.
Dizer-vos que não julgo as mães que não vão. As que não vão porque não podem, as que não vão porque têm outros afazeres, as que não vão porque têm quem possa ir por elas. Todas as razões são válidas e todos os caminhos são legítimos, desde que vividos com verdade. Acontece que, às vezes, a nossa verdade muda e aí, tenhamos a coragem de mudar a rota e acertar o passo.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Desapego e Amor

Nova Zelândia, 2018

O desapego não significa deixar de amar. Não significa largar, esquecer, abandonar. Desapego pode ser Amor no sentido mais nobre da palavra, porque implica deixar ir, amando muito. Implica deixar voar, mantendo a rede. Desapego é uma das maneiras mais bonitas de gostar de um filho, porque mostra-lhe que ele é capaz e que nós, pais, também.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Staples, o nosso sítio do costume*


Comprar material escolar para os meus filhos, é uma espécie de regresso às origens. A um sítio lá atrás, onde a minha mãe passava o serão a forrar livros e gavetas com papel autocolante, onde as borrachas cheiravam a morango e a pastilha elástica (lembram-se?), e onde ensaiava uma letra nova nas etiquetas dos cadernos prontos a estrear.
Comprar material escolar é, ainda hoje, muito mais que uma rotina com os miúdos; é voltar aos tempos em que eu e a minha mãe éramos o mundo uma da outra, é voltar a um lugar único, pessoal e intransmissível que não existe mais, a não ser na minha cabeça e nos cheiros dos cadernos novos, e das borrachas com aroma a morango e a pastilha elástica.
[como todos os anos, fomos fazer compras à Staples, o nosso sítio do costume]

*post escrito em parceria com a Staples

Coaching Parental, sabes para que serve?

Sou Assistente Social há 20 anos, e sei por experiência própria como é desafiante trabalhar com famílias. As pessoas com quem trabalhamos chegam-nos, tantas vezes, carregadas de preocupações e de dificuldades, saturadas das suas próprias vidas difíceis, uma sensação de peso e frustração que inibe muitas vezes os técnicos (psicólogos, educadores professores, mediadores, entre tantos outros), de encontrar alternativas criativas e eficazes para dar a volta à situação e contribuir para a mudança.
O Coaching Parental e esta formação de que te vou falar em particular, serve para isso mesmo: para dotar os técnicos de ferramentas que lhes permitam fazer diferente, provocando mudanças positivas na vida das pessoas, orientando sem recriminar e sem julgar, porque a tarefa de educar é a mais nobre e a mais difícil do mundo, e quem nunca se sentiu perdido e desnorteado a ser pai e mãe, que lance a primeira pedra.
O curso "Coaching Parental: Uma Nova abordagem no Trabalho com Pais", vai decorrer nos fins-de-semana de 29 e 30 de Setembro e de 13 e 14 de Outubro na Red Apple, em Lisboa. Se tiveres interesse em saber melhor do que se trata, poderás encontrar todas as informações AQUI e inscrever-te. 
Acrescento que uma das formadoras é a Sandra Belo, amiga, psicóloga, mãe empreendedora, mulher de armas e uma profissional de mão cheia. Só boas razões para quereres saber mais e, quem sabe, para fazeres já hoje a tua inscrição.
Vamos a isso, que a vida não espera.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O poder das histórias


Contar histórias aos meus filhos sempre foi a melhor maneira que arranjei de criar ligação, e de estar emocionalmente presente para eles. Nunca gostei de me sentar a brincar, também nunca fui fã de jogos nenhuns, de modo que facilmente a minha mente voava para outras paragens quando tinha que focar a minha atenção neles. E era cansativo e frustrante e culpabilizante.
Contar histórias foi a minha salvação (e talvez a deles), porque nos conectou. Hoje, mãe de 4 e com 44, acho que o importante disto tudo é arranjar estratégias que nos sirvam, e que não sejam impostas por livro nenhum, nem por nenhuma moda pedagógica. Acredito que a conexão é tudo na relação entre as pessoas (e, naturalmente, entre pais e filhos), por isso, se a tua onda for cantar músicas em conjunto, fazer um bolo, pregar partidas, fazer macacadas, dançar na sala, tudo vale em nome da conexão. Porque os filhos voam, nós também, e ela é a cola disto tudo.

domingo, 23 de setembro de 2018

Espero-te sempre.

Sidney, 2018

Morro de saudades tuas, puto. As fotografias que o pai e a Marta mandam, ajudam a manter-te mais perto de nós, mas é através delas que percebo mais um bocadinho, todos os dias, que estás longe. Estás a ganhar mundo, a conhecer mundo, a agarrar o mundo.
Sei que isto é só o início. Imagino que daqui para a frente não existam limites, porque já percebeste que há vida lá fora.
Espero-te sempre. Mesmo que a partir de agora, só me reste esperar.

sábado, 22 de setembro de 2018

A vida a passar por mim, sem mim.


A conciliação não existe.
Existe o meu homem que faz das tripas coração para suprir as minhas faltas. Existem avós que se desdobram no tempo e no espaço para darem conta dos meus recados. Existe a vida em constante sobressalto para falhar o menos possível e para estar presente naquilo que é importante. Existem noites curtas, insónias e valdispert quando a ansiedade aperta. Existe o colo do meu homem e da minha mãe. Existe a generosidade dos meus filhos perante os meus atrasos e diante do meu desespero. Existem serões inteiros em frente ao computador. Existem as muitas vezes em que não vou buscar o meu bebé à creche. Existe muito trabalho depois da casa estar em silêncio. Existem os amigos do peito para me mostrarem vida para além da minha vida. Existe a vida lá fora, que é tão boa. 
A conciliação não existe. Esqueçam. Existem escolhas e prioridades em cada fase da vida. Apenas e só.

[escrevi este post em Junho, em frente ao Tamisa, naquele que terá sido o momento em que vi com clareza como a vida passava por mim, sem mim]

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Saber parar. Tu sabes?



Nos últimos tempos da minha vida caótica, acumulei 5000 emails por ler na minha caixa pessoal. Sim, leram bem, 5000 emails.
Já os li um a um, e apesar de grande parte deles serem newsletters que subscrevi nalgum momento ensandecido da minha existência ou press releases que, com o devido respeito, não me acrescentam grande coisa, alguns eram de leitores do blogue a quem lamentavelmente não respondi em tempo útil (respondi agora, mas a destempo e peço infinitas desculpas por isso!), ou fotos de família perdidas,que nunca cheguei a arquivar. A fotografia acima é uma delas, uma "pérola" perdida no meio do caos, que curiosamente representa a paz, a ordem e a sensação de que está sempre tudo no lugar certo.
Esta foi a primeira vez que o meu homem deu a mão ao nosso bebé, e isso diz quase tudo sobre isto da vida se encarregar de nos encaminhar para o trilho que nos pertence, assim saibamos ler os sinais. Falo-vos da nossa voz interior que tanta vezes nos sopra ao coração e quase nos grita ao ouvido, mas que por tantas razões (o medo do desconhecido, da pressão social, do fracasso, da mudança...), fingimos não sentir e não ouvir. Insistimos na falsa ignorância e ficamos cegos e surdos, mas mais importante que isso, tremendamente infelizes, às vezes, mortos-vivos, ainda que ninguém repare.
Sentes-te assim ou perto disto? Então faz isto: limpa a caixa de emails, areja o que tiveres que arejar lá em casa e pára um bocadinho. Ousa parar. Faz isso alguns dias seguidos. Pára, por favor. Pára e ouve. Pára e ouve-te.
A resposta vem.

*este post não respeita o Acordo Ortográfico, porque me recuso a escrever "pára" sem acento

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Nós por cá!


A vida corre normalmente sem ti, puto, não vou mentir-te. Os manos estão bem, os dias andam ensolarados, acordo de manhã com aquela sensação de que coisas muito boas ainda estão para chegar, continuo a rir à gargalhada, mantenho o apetite, durmo bem, ando feliz. A tua ausência não me parou a vida nem a tornou irremediavelmente triste. De todo. Mas uma coisa é certa: tenho tantas, mas tantas saudades tuas, que às vezes, por nanosegundos, me falta o ar.

Fala-me de ti...





Se te pedir para falares de ti, falas-me mais facilmente do que fazes, do teu trabalho, do que de ti próprio, porque o teu trabalho é normalmente aquilo que te define. Tu e eu fomos treinados desde pequenos para formarmos a nossa identidade em função do que fazemos, para confundir o que somos com aquilo que fazemos. Senão vejamos: quantas vezes te perguntaram em criança o que querias ser quando fosses grande e quantas vezes já não perguntaste isso a outras crianças? Invariavelmente, terás respondido sobre a tua profissão de sonho, porque é esperado que à pergunta "o que queres ser?", respondas o que queres fazer. Esta ligeira confusão de verbos tem um impacto tremendo nas crenças que construímos à volta do trabalho e da nossa identidade. Somos o que fazemos, logo, se não fazemos bem somos um fracasso, se não sabemos o que queremos fazer, somos inseguros, pouco focados, e por aí adiante.
Lanço-te um desafio: se te pedir "fala-me de ti...", tenta responder sem recorrer ao trabalho que fazes, ao cargo que ocupas, ao curso que tiraste. Fala-me de ti, de quem tu és. Experimenta sem medo. Eu começo:
Sou a Marta. Filha única e mãe de 4 filhos, adoro viajar e escrever, e sou apaixonada por partilhar experiências e por criar "pontes", porque acredito que é nessa partilha que nos redescobrimos e que criamos conexão com os outros.
Agora tu...fala-me de ti...
Acredita que não dói nada.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

30 dias sem ti



Há exatamente 30 dias que viajaste. Falamos ao telefone todos os dias e manténs (para bem dos meus pecados!), aquele ar solto e desprendido que me ajuda a relativizar tudo. A pontinha de emoção que sinto da tua parte, é quando falamos do mano, aí, a tua voz adoça.
Dizer-te que o Vicente está à tua espera, feliz e resolvido com a tua ausência. Sabe que estás na China (onde quer que isso seja para ele), e acredita piamente que estás sempre a banhos, por causa do vídeo que lhe mostrei contigo mergulhado num lago maravilhoso. Para ele, a China é um sítio ou uma coisa qualquer que tem o "mano Date" dentro, mas não é mau. É algo confortável e amigo, onde tu cabes, mas que não te roubou dele. O mano sabe que estás por lá, mas que continuas nosso e dele, uma certeza que lhe vem do coração, porque a mente ainda não interfere.
És de poucas palavras e eu detesto falar ao telefone. De modo que como sou melhor com as palavras escritas, é só para te dizer que estamos todos bem, que quando voltares o teu quarto estará um nadinha diferente (culpa do Vasco!), mas que continuará a ser teu, e que o Natal já esteve mais longe.
Adoro-te, puto.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A Mudança e o Medo


Muitas pessoas me perguntam se não tive medo de fazer as mudanças que fiz na vida, e se soube em que momento exacto fazê-las. Começando pela primeira questão, o medo faz parte. O medo alerta-nos para o perigo  e protege-nos tantas vezes. A chave está em esquecer a ideia de que o medo é um bicho papão, e encará-lo como ele é: um tipo porreiro que evita que façamos asneiras que nos custam caro. E eu sou a campeã dos medos: de baratas, de répteis, de alturas, de falhar, de acertar, de não pertencer, de ser má mãe, de ser má filha, de nunca ser suficiente, de não encaixar em sítio nenhum. Eu sou a pessoa que conheço que mais medo tem, talvez porque sou a que conheço melhor, mas não paraliso. Enfrento-o até libertar-me dele, como as cobras se libertam da pele, e saio sempre diferente; nem melhor nem pior, mas definitivamente transformada.
Quanto a saber o momento exacto para fazer mudanças, não sei. Se a vida fosse como fazer um bolo, bastariam a temperatura certa de forno e os gramas certos de açúcar e de farinha para tomar decisões, mas a vida real não se compadece com medidas exactas. De modo que é preciso intuição qb e doses homeopáticas de loucura. E é preciso ter planos B, C e D. E quem acredite em nós e nos dê a mão, mesmo quando tudo ainda parece não fazer sentido nenhum. Eu tenho isso tudo e sinto-me a mulher mais grata do mundo.

domingo, 2 de setembro de 2018