quinta-feira, 4 de agosto de 2016

O pai também sofre!

Foto: Pau Storch

No caminho da maternidade para casa, só os três, e ainda meio aturdidos com o tsunami que tinha acabado de chegar às nossas vidas em forma de "filho", disseste-me que quando olhaste para ele pela primeira vez não foste tomado pelo arrebatamento de amor que estavas à espera.
As tuas palavras genuínas caíram sobre mim como uma bomba. Acabava de parir há dois dias, tinha as hormonas a darem conta de mim como só nós mulheres sabemos como é, e apesar do ligeiro baby blues que sentia, fora tomada de assalto por um amor infinito por este bebé. Um sentimento imediato que não precisou crescer, porque já lá estava. Apaixonei-me perdidamente por ele, assim que saiu do meu corpo e que foi posto sobre mim, quente e sujo. Não foi um crescendo, nem uma aprendizagem. Foi um coup de foudre. Um amor à primeira vista que me apanhou desprevenida.
Fiquei em silêncio até chegarmos a casa e tu percebeste. Perguntaste se estava triste com o que me acabavas de dizer, fiz com a cabeça que sim. E assim ficámos, quietos nos nossos pensamentos.
Mais tarde, já deitados na nossa cama, e depois de passar o tempo que sabias que ambos precisávamos, voltaste sabiamente ao assunto. Disseste que a torrente de sentimentos era tão grande e que os últimos dias antes do parto tinham sido tão intensos, que havias fechado por uns instantes a torneira das emoções. E que tinhas uma espécie de bola de fogo dentro de ti, a marinar, que uma vez cá fora seria difícil controlar.
Nessa noite "a bola de fogo" saiu e choraste como um bebé. E eu amei-te mais ainda, como se isso fosse possível. Porque me ensinaste que o encontro com o Amor assume muitas formas e tem muitos caminhos diferentes. E que não faz mal.
Amo-te.

7 comentários:

Sofiazinha disse...

E pronto Marta....já deitei umas lágrimas. :)

Adorei o texto. E comove-me muito.

Beijinhos a todos.

Teresa disse...

Texto escrito com o coração! Cada vez mais admiro a Marta e a sua grande família. Grande Abraço

Susana Aguiar disse...

Olá Marta, eu sou mãe e apesar de na altura ter reprimido esse sentimento e essas palavras, quando a minha filha nasceu também não senti esse sentimento avassalador que nos falam que vamos sentir. E Ela saiu de dentro de mim, foi minha antes de ser do pai.
No dia seguinte, e no outro e no outro o amor explodiu...
Não somos todos iguais e acho que isso não faz de mim nem menos nem pior mãe.

Parabéns pelo 4º

Anónimo disse...

Comigo também foi assim... e fiquei assustada! Como era possível ter sido mãe pela primeira vez e não me sentir de imediato, tomada por esse amor imenso que todos falam?
Pois... o amor está lá! No meu caso, tive que acalmar daqueles dias loucos com tudo a acontecer a um ritmo alucinante e, principalmente, a olhar para ela, a minha bébé, sem aquele pânico de pensar 'no que é que me fui meter... e agora? Vou ser capaz de fazer isto?'

moijeeu disse...

Muito bonito ter partilhado este momento tão intimo. E ter tido a coragem de escrever sobre isso. Numa altura em que se vive a ditadura da maternidade e também da paternidade é bonito assumir diferenças, fraquezas, emoções.
Dos posts mais lindos que já li.
Obrigada mais uma vez.

Anónimo disse...

Um dos posts mais lindos, honestos, enternecedores e frontais que já li em toda a minha vida.
Parabéns!
Ana

Helena Araújo disse...

Uma psicóloga francesa, a Françoise Dolto, dizia que todos os pais são adoptivos. Há os que "adoptam" o filho no momento em que o vêem pela primeira vez, outros é um pouco mais tarde: quando pegam no bebé, quando ele sorri, ou até quando o miúdo marca o primeiro golo...