domingo, 25 de outubro de 2015

Mãe


Já disse aqui outras vezes que nunca sonhei ser mãe. Consta que não "maternalizei" boneca nenhuma e que o meu sonho de menina não passava por ter filhos. Era coisa em que nunca pensava, virada que estava para o meu próprio umbigo e para as minhas crises existenciais de filha única.
Apesar disto, o meu primeiro casamento deu-me três filhos, num período ainda longo de que perdi muitas memórias. O [pouco] tempo que separava uma gravidez da outra não me deixava desfrutar de grande coisa, não porque fosse tecnicamente impossível, mas porque era mais fácil ocupar-me das mil tarefas relacionadas com a maternidade, em vez de me emocionar com a queda do primeiro dente, com a primeira vez que ouvi a palavra "mãe", ou com o dia em que algum deles se levantou e deu os primeiros passos pela primeira vez. 
Olho para trás, aos quarenta e um anos de idade, e percebo que estive sempre fisicamente presente para os meus filhos, mas distraída de muitos "detalhes". E percebo que "agarrei" a maternidade com unhas e dentes, quando os vi a crescer depressa demais e me dei conta que tudo, na vida deles e na minha, é absoluta e irremediavelmente irrepetível.
No outro dia, num workshop que fiz, alguém dizia que a sua vocação era ser mãe. Percorreu-me uma ponta de inveja, porque nunca disse isso em voz alta para ninguém, nem para mim mesma. A mulher que sou vai além da mãe que sei ser, e se isso é não ter vocação para ser mãe, então não tenho.
Mas o que fazer com esta emoção que me ocupa o espaço todo, sempre que olho para um dos meus filhos e sempre que me surpreendo com uma palavra, uma frase sua? O que dizer das saudades deles, que já quase me mataram, e da falta dolorosa que me fazem, mesmo quando me reinvento enquanto mulher, amiga, amante? O que fazer com o espaço gigante que ocupam em mim, que relativiza todas as dores, todas as preocupações, toda a vida lá fora, porque no final do dia o que realmente importa, da mulher toda que sou, são eles?
Continuo a não saber se a minha vocação é ser mãe. Mas a vida insiste em querer mostrar-me que, afinal, tenho andado enganada este tempo todo.


3 comentários:

marina maia disse...

Bom dia
Adorei...embora eu saiba que ser mãe aconteceu na minha vida porque quiz não sendo essa a minha missão de vida. Adoro ser mãe, mas sou muito mais que uma mãe, sou sobretudo uma pessoa que adora viver!!!
Continuo a adorar ler te!

Joana Carvalho disse...

Perguntinha inevitável:
Vêm aí um bebé????

Adoro o blogue. Adoro a vossa felicidade!

beijos

O Pai disse...

Excelente momento. Obrigado por estas palavras. Acho sinceramente que muita sente o mesmo!

O Pai,
http://soupaieagorablog.blogspot.pt