terça-feira, 4 de agosto de 2015

Uma rookie no trail [TNLO 2015]

[foto: Tiago Portugal, Correr na Cidade]

Começar pelo fim: o sorriso da foto na chegada à meta não deixa transparecer o choro, as dores e os gritos que dava minutos antes, nos trilhos. É um sorriso genuíno de quem se ultrapassou. De quem acabava de fazer o seu primeiro trail da vida, 26km à noite, quase cinco horas de prova. Mas é principalmente um sorriso de alívio por ter acabado. Tinha chegado ao meu limite físico e psicológico e já não queria mais estar ali. Minutos antes da foto, queria muito a minha cama, os meus filhos, a minha vida normal de volta. Minutos antes.

Voltar ao início: a prova começou às nove e meia da noite e partimos quatro. Sempre soube que acabaríamos inevitavelmente dois, porque ninguém aguentaria a minha passada de caracol, a não ser por amor. Não me enganei. As duas companheiras seguiram ligeiras à sua vida e muito bem, e nós fomos ficando para trás. Voltámos a ver-nos todos aos 3km, junto à primeira de muitas subidas do demo que iríamos ainda ter. Depois, seguiu-se um longo trail a dois. No escuro e no absoluto silêncio.
Para ter a vida mais facilitada, fui leve como um passarinho. Era o meu homem que carregava todos os abastecimentos que levávamos, e foi ele que me alimentou e hidratou ao longo da prova, com a disciplina e a dedicação de quem alimenta um filho bebé. O meu único plano era seguir caminho, ao meu ritmo, correndo sempre que podia, tentando nunca ser um fardo, que para isso já bastava o ritmo penosamente lento a que o obrigava a correr.
Os quilómetros foram passando, uns mais fáceis que outros. Nos estradões tentava correr,e nos trilhos fechados tentava não me queixar. Subia e descia cordas, arrastava o rabo como quem carrega um peso pesado, agarrava-me com unhas e dentes a ramos, a pedras a tudo o que me pudesse ajudar a não cair. E mais importante que tudo, tentava fazê-lo sempre sem nenhum queixume, porque já que não era leve na passada, ao menos que fosse na cabeça.
No primeiro abastecimento {aos 10km}, tinha como única preocupação aliviar a bexiga {coisa que fiz num sítio inusitado, vos garanto}, beber água fresca e seguir caminho, porque se o meu plano inicial era ficar-me por ali, agora que ali tinha chegado, não queria parar.
Seguimos em frente por caminhos que não sei descrever. Estávamos sozinhos a ouvir apenas a nossa passada  e a nossa respiração, e não via nada para além dos metros de luz que o frontal me deixava. De vez em quando, sempre que me distraia de controlar os pensamentos,  vinham-me à cabeça fantasmas meus. Acho que apareceram quase todos na minha mente: a fobia de cobras, o medo infantil do escuro, o pânico de cair e de não me levantar, o receio de ter alguém atrás de mim, muitos. Fui enxotando todos, como corria: devagar e decidida, porque sabia que se me deixasse levar por algum, estaria perdida.
Chegados à Lagoa de Óbidos vivemos a parte mais gira do trail inteiro. A lua cheia reflectia-se na água e pudemos desligar os frontais e experimentar correr à luz da noite. Acho que foi a única vez que olhei em volta e a única em que tomei consciência da magnitude de tudo o que me rodeava. Ali, tudo o que preocupa no mundo real fica pequeno como uma noz. A natureza, o silêncio, o escuro, têm o mérito de dar a justa dimensão aos acontecimentos da vida.
Olhando para cima já se avistava o abastecimento dos 17km e foi ali, naquele exacto momento, que achei que iria conseguir fazer os vinte e cinco. Afinal, já tinha feito oito quilómetros muitas vezes e o que eram oito comparados com os dezassete que acabava de fazer? Entre bocados de melancia, tomate com sal, bolachas e água, o meu homem perguntou-me se queria parar por ali. Havia quem nos levasse de volta a Óbidos de carro, e aquele era o momento para decidir. Não hesitei e quis continuar. Não fizera tudo aquilo em vão. Eram oito. Só oito. Já tinha corrido oito quilómetros muitas vezes. Sentia-me uma super-mulher.
Voltámos a embrenhar-nos no mato cerrado e nas cordas. Nas malditas subidas íngremes onde não tinha sítio para meter os pés nem as mãos. Os oito quilómetros que já fizera muitas vezes não eram aqueles. Começava a sentir-me cansada de subir e descer, a luz dos frontais estava a perder intensidade e já só queria chegar à meta, no castelo. Ou por outra, queria chegar ao quarto de hotel, ao duche quente, à nossa cama.
O meu homem tentava manter a boa-disposição com um frontal que já quase não dava luz nenhuma, e com um "apêndice" que conhece bem e que sabia que começava a fraquejar. "Faltam só 3km, amor", era o que me dizia, "o castelo está já ali". Mas a verdade é que os três quilómetros do castelo pareciam trinta. Pareciam uma eternidade.
Ao quilómetro vinte e três, em mais uma subida do diabo, senti o joelho esquerdo ceder, num esticão que não soube o que era, mas que percebi que não era uma brincadeira. E quebrei. 
Daí até à meta não foi bonito de se ver. Muitas subidas e descidas, com dores muitos fortes. Muitas lágrimas e alguns momentos em que disse que não continuava mais. Os fantasmas todos a subirem por mim acima, como parasitas. A magnitude daquilo tudo a abater-se sobre mim, finalmente.
Demorámos cerca de uma hora a fazer o que faltava para atravessar a meta. E atravessá-mo-la juntos, como já atravessámos muitas outras metas da vida.

[isto foi o que de mais objectivo consegui escrever sobre o Trail Nocturno da Lagoa de Óbidos. Tudo o resto, o que fica por dizer neste post, será sempre uma declaração de amor ao meu marido. Ele sabe porquê]

PS: um agradecimento à crew do Correr na Cidade pela motivação e pela força, e à Sara, que me garantiu que eu seria capaz.

6 comentários:

Malcata disse...

Todos sabíamos que claro q eras capaz, os fantasmas só estão lá para os afugentarmos e seguir em frente. Os risos, choros, ais e hahas fazem parte do percurso e do que nos propomos e no momento de passar a meta já nada disso importante, o sorriso enche a alma e coração e fica sempre o bom, só o bom.
PARABÉNS Trailer! Beijinho

ps: saudades de partilhar os trilhos com esse companheiro fantástico q foi o teu, e já tive a honra de ser o meu em grandes e bons momentos de nossas desventuras.

Sofia Mendes disse...

Parabéns!!! :)

Escrever Fotografar Sonhar disse...

Mais uma (grande) prova superada! bjs

Filipe Gil disse...

Se fizeste xixi no mato, és uma trail runner. Bem-vinda. Só uma advertência: é a primeira de muitas. Haja saúde!

Anónimo disse...


muito bem escrito,de tal maneira bem, que me senti lá com os meus medos.
parabéns.

Ana Almeida disse...

Espectacular! Muito orgulho!