segunda-feira, 25 de maio de 2015

Todo o tempo do mundo



O único problema de casar tarde na vida, é recear não ter tempo para viver tudo o que preciso contigo.
Prestes a fazer 41 anos, começo a recear o que nunca antes me apoquentou. Coisas parvas, que quando temos vinte achamos que só acontecem aos outros, e que com mais vinte em cima, achamos que só nos acontecem a nós.
Para ser honesta, queria ter metade da idade contigo. Queria mostrar-te como era, na frescura da idade. Quando as pálpebras ainda não me caíam como cortinas sobre os olhos. Quando o meu corpo era tonificado como um pêssego pouco maduro. Um tempo em que os meus braços ainda não balançavam como uma bandeira ao vento, e os meus joelhos ainda não apontavam para o chão.
Queria que me tivesses visto a dançar rumba num salão inglês com orquestra ao vivo, e que me tivesses aplaudido de pé. Gostava que visses a minha barriga antes de parir três crianças, e que me tivesses conhecido com dois números a menos de pé, porque ambos cresceram até ao 41 depois das minhas três gravidezes.
Teria sido espectacular conheceres-me sem brancas num cabelo preto retinto, e com um queixo sem papo nenhum. E já agora, que me tivesses apanhado na altura em que fazia espargatas com uma perna às costas, e em que apanhava uma bola no ar, depois de um salto aberto e de uma cambalhota.
Amor, gostava que me tivesses apanhado no vigor da idade, quando ainda não sentimos limites. Aquela altura da vida em que achamos que somos invencíveis e eternos em tudo o que temos de bom.
Ontem dizia-te isto mesmo, enquanto abanavas a cabeça em sinal de desacordo.
Achas que nos encontrámos no momento certo. Que precisámos da vida para trás, para valorizarmos o que temos hoje. Que me preferes assim, na flor da maturidade.
E eu gosto tanto que digas isso. Que não te importes com as marcas que a vida me foi deixando. Que as veneres, como quem venera um monumento histórico, num misto de respeito e de desejo de profanação. 
Não contes comigo para sair até altas horas, que os meus pés 41 biqueira larga e a minha cabeça cansada já não aguentam. Prefiro um vinho e um salmão fumado no recato do lar. Uma boa conversa, uma música de fundo, uma madrugada quente, mas que não requeira longos percursos, nem grandes confusões.
Conta com alguém que já sabe o que quer e do que gosta, sem medo de fazer pedidos inusitados.
E se isto te bastar - este corpo menos firme numa cabeça mais arrumada - temos todo o tempo do mundo.

7 comentários:

Fio a Pavio disse...

Identifico-me tanto nestas palavras... tanto querida Marta! Mas em momentos como estes recordo uma frase de uma querida amiga: que seja eterno enquanto durar... e sigo em frente. beijinhos coloridos

Joana Carvalho disse...

LINDO!!! Adoro esse vosso amor!!
Que cumplicidade linda! Se um dia a vir na rua, dar-lhe-ei um abraço!!

beijinho,
Joana

Anónimo disse...


Revojo-me muito no que escreve, e especialmente neste texto. Parabéns pela força, pela sensibilidade, pelo amor imenso que transmite!!

ana martins disse...

Cara Marta:
Não consigo ver barriga, nem papos, nem joelhos esquisitos nem braços a abanar...
Desculpe, mas não vejo nada disso!
Vejo uma mulher muito determinada, muito bonita e uma lutadora.
Quem me dera metade da garra...
Desculpe...gosto imenso de a ler, identifico-me bastante com muita da sua escrita...talvez por também ser assistente social.
Continue assim, certamente a vida lhe trará as recompensas que merece e obrigada pela partilha!
Ana Martins.

ddm disse...

Parabéns! São muito bonitos estes textos que dedicas ao teu marido. :)

SMS disse...

Muito bonito, Marta. :)

Anónimo disse...

Muito bonito! (Comentário repetitivo mas sincero)