terça-feira, 19 de maio de 2015

Em pleno salto mortal



Sempre que estou a pontos de saltar para o abismo, fico assim: paraliso. Mesmo que o abismo possa vir a ser um oásis qualquer.
Passo noites em claro, antevejo aquilo que me atormenta vezes sem conta, repito para mim própria mantras que me ajudam a sossegar a mente mas, ainda assim, sofro por antecipação. Sofro muito.
Não sei porque raio é que ainda me espanto com esta minha maneira de ser, porque sou isto desde que me lembro de mim. 
Antes de qualquer evento que me anseia, entro num estado de hibernação que não é visível a olho nu, mas que é perceptível aos mais chegados. Falo francamente menos {o que, no meu caso, é praticamente sinal de doença}, gosto pouco de aglomerados de gente e de confusão, entro numa espécie de retiro que me prepara para o salto mortal.
Depois dessa fase paralisante, preparo-me para o acontecimento de forma germânica, porque o risco de falhar é grande e não gosto de perder o pé. Treino, repito, pratico cada gesto e cada palavra ao milímetro. Simulo ao espelho, faço role-playing no carro, fecho-me na casa-de-banho e digo aos meus filhos que a mamã está a treinar reuniões. Falo alto para me ouvir, e peço a todos os santinhos que na hora "h" o raciocínio não me fuja e as palavras não saiam descontroladas. Inspiro e expiro para me dar conta da minha própria respiração, e rezo para não perder a voz, nem me perder de mim própria, num chorrilho de frases sem nexo.
Quando estou distraída, o pânico chega-se perto. Tão perto que quase me tira o ar. Mas depois enxoto-o, como às moscas. E percebo que se correr mal, não morro. E que se correr bem, renasço.



3 comentários:

Ligia Silva disse...

Parabéns pela sinceridade e pela capacidade de te expores desta forma :)

Sol disse...

Não estás sozinha nessa maneira de ser :)
Respira fundo e deixa (te) ir!

Escrever Fotografar Sonhar disse...

"... que se correr mal, não morro. E que se correr bem, renasço"

Posso guardar esta frase no coração para a repetir para mim própria?