sexta-feira, 24 de abril de 2015

Bullying [vamos chamar os fantasmas pelos nomes]



Passei muitos recreios sozinha e fui, dezenas de vezes, gozada na escola.
As pernas cheias de psoríase e a cabeça coberta com ligaduras, depois de um acidente grave, faziam de mim a chacota de uns quantos colegas, tinha eu 7 anos. A idade da minha filha, agora.
Fui arrastada para a casa-de-banho e ameaçada várias vezes, e tive "amigas" que não se chegavam a mim, com medo que lhes pegasse a "doença de pele". "Amigas" que diziam que lhes metia nojo. Que era feia. Que estava sempre a chorar. E chorava muitas vezes, sim. Quase todas as manhãs antes de ir para a escola, e ao portão, enquanto via o carro da minha mãe desaparecer, ao fundo da rua. Um sentimento de angústia e de perda que, às vezes, ainda acorda comigo.
Lembro-me de não me importar que chovesse, para me refugiar debaixo do chapéu-de-chuva, uma espécie de casulo que me livrava de quase todos os males. E de não querer usar vestidos, nem saias, para que as manchas de psoríase das pernas não ficassem a olho nu. 
Detesto a escola primária com todas as minhas forças, mas juro que nunca disse nada disto  aos meus filhos, que continuam sem saber o quanto a mãe {aos sete, oito anos}, a odiava profundamente.

Agora com quarenta, penso no que esta história me fez sentir durante demasiado tempo: um peixe fora de água, uma ovelha negra, uma carta fora do baralho, um extra-terrestre.
Penso no medo que ainda hoje tenho de que não gostem de mim, do pânico que ainda me consome de não agradar, da tentação que ainda me persegue para ir ao encontro às expectativas dos outros.  E só eu sei o esforço que tenho feito para me libertar desta tirania "do que os outros vão pensar", naquele que continua a ser um exercício diário.
Durante muitos anos, não soube atribuir um nome ao que me aconteceu. Hoje sei que fui vítima de bullying e saber isto, é validar a dor. É dar-lhe corpo e forma e dignidade. O primeiro passo para que a maldita desapareça de vez.






5 comentários:

ana sousa disse...

Engraçado que agora há pessoas que nem a conhecem e mesmo assim gostam de si, graças ao blogue! Obrigada por este se ter tornado um cantinho de leitura diária obrigatória :)

Anónimo disse...

hhhh

ana rita disse...

E o patinho feio afinal era um lindo cisne!

Melika disse...

Estas situações são mais comuns do que nós pensamos! E as crianças conseguem ser muito cruéis. Também passei um inferno na minha infância, mas isso só me tornou numa mulher mais forte. Não é fácil, e o processo todo de reconstrução é um longo caminho mas consegui. Hoje sou linda e maravilhosa e simplesmente não me interessa o que os outros pensam de mim.

Anónimo disse...

Por um lado é bom conhecer mais alguém que sofreu como eu, em certos aspectos.

Tenho eczema de contacto desde os meus 3/4 anos, e sempre tive "amigas" que tinham medo que eu lhes tocasse porque a minha doença poderia ser contagiosa.

E quando aos 7 anos comecei a engordar, porque me tornei no que os americanos chamam de emotional eater e a comida foi o meu escape do que estava a acontecer lá em casa (a minha mãe adoeceu com cancro de mama quando eu tinha 6 anos), estão a ver o rumo que isso tudo tomou, certo?

E a verdade é que ainda hoje me dói quando percebo que há alguém que não gosta de mim\engraça comigo. Ainda hoje me dói olhar ao espelho.

Mas aos poucos uma pessoa vai ganhando carapaça e vai ficando forte.

Por isso gd beijinho para ti