quinta-feira, 19 de março de 2015

Vieste a tempo, pai!


Não foi contigo que desabafei sobre os meus primeiros namorados, sobre o meu primeiro beijo melado, nem sobre as minhas primeiras grandes desilusões amorosas.
Não estavas lá para mim, ocupado que andavas com a tua vida-furacão, entre este País e outro qualquer, entalado entre dois mundos.
Não me aconchegaste os lençóis à noite, nunca me leste história nenhuma, baralhavas a minha data de nascimento e o ano em que andava na escola. Sabias pouco de mim. Durante alguns anos, sabíamos muito pouco um do outro.
Mas o Amor tem destas coisas desconcertantes: nunca chega tarde. E não, não é um lugar comum, nem uma treta de um chavão. É mesmo verdade que nunca é tarde para amar, e não foi tarde quando me chegaste.
Vieste a tempo de te levantares às quatro da manhã para me ires buscar ao autocarro, no Campo das Cebolas, quando vinha de dar aulas de dança em Braga. Vieste a tempo de te emocionares a veres-me dançar nos Alunos de Apolo e em todos os sítios para onde ia, fins-de-semana a fio. Vieste a tempo de eu poder conhecer contigo a selva amazónica, as dunas de Natal, as pirâmides aztecas e a Acrópole em Atenas. Vieste a tempo de seres avô dos teus três netos, aquele que os entope de doces e de mimos, até caírem para o lado de cansados e de felizes. Vieste a tempo de me visitares quase todos os dias, quando o teu neto do meio me obrigou a uma gravidez de cama. Vieste a tempo de me apoiares quando tomei a decisão mais difícil da minha vida, a tempo de seres o único pai que naquele exacto momento precisava.
Vieste a tempo de compensar tudo aquilo que não vivemos e de sermos, juntos, tudo aquilo que não fomos.
Vieste a tempo de mim e de nós e esse timing perfeito, será sempre o teu maior feito.

[texto publicado no Roteiro 30 Dias]



2 comentários:

Vidas da Nossa Vida disse...

Tão bonito! Aproveitem-se bem!!

Cláudia M disse...

Mesmo bonito o texto ! E que continuem a fazer muito juntos, por muito tempo :)

Beijinho